Tento, tento… mas de pouco vale. Ano após ano, é sempre a mesma coisa. Não consigo “desligar-me”. Com os telemóveis, é mais fácil: um foi guardado na gaveta. (Mas o outro está aqui ao lado, na mesa da esplanada, a olhar a Ria Formosa, local de repouso há três décadas). Tempo de férias é espaço de descanso, de gozos irrepetíveis. Duas semanas em calções, o caminhar na relva madrugada dentro ou o acordar quando o sol ainda dorme, olhar deitado o céu de estrelas, sentir este odor a amêndoa misturado com esteva, sal do mar, figos. Só me faz falta o cheiro forte a maresia das praias do Norte; o resto é perfeito. O paraíso deve ser muito parecido com estas redondezas de Tavira. Mas − oh ironia! − o maior prazer leva-me inevitavelmente de volta à profissão, à rotina dos dias de trabalho, ao espaço da Redacção, à tinta que suja as mãos e lava a alma quando procuramos as páginas impressas junto à rotativa. Os jornais perseguem-me e, sem eles, as férias não teriam sabor.

Azar supremo: quiosques não faltam por aqui, repletos de títulos em várias línguas. Tento resistir, prometo que «este ano vai ser diferente», viro-lhes as costas nos primeiros dois, três dias, mas o destino está traçado e acabo com pilhas de jornais “plantadas” pela casa. E na mochila que levo para a praia, pode faltar a toalha, pode faltar o protector e a garrafa de água, mas eles… não. É a modos que uma sina traçada desde sempre, sabe-se lá por quem ­− talvez tenha sido o meu pai, com aquele hábito de levar para casa o “Diário Popular” com as anedotas ao sábado e “O Primeiro de Janeiro” ao domingo com a interminável banda desenhada do Príncipe Perfeito. Deve ter sido aí que tudo começou.
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O resto da história conheço-a bem. Os jornais emprestados na mercearia da Rua da Gala, alguns velhos de meses e até anos, que serviam para embrulhar tudo, desde o sal ao feijão, e que eram a alegria dos meus fins-de-tarde, quando voltava da escola. Devolvidos no dia seguinte, davam direito a nova remessa, sabe-se lá de quê, mas o importante era lê-los, fossem desportivos ou não, monárquicos ou salazaristas. Sabia eu lá disso!
Mais tarde, o meu pai fez um acordo que me permitiu passar a ler a actualidade. O ardina tinha banca montada defronte da Igreja de Santa Cruz, eu vinha do liceu, Sá da Bandeira abaixo, comprava-lhe o jornal com o dinheiro poupado da viagem de eléctrico para Cumeada (era apenas meia horita da Baixa até às aulas…). O jornal do dia! E devolvia-o na manhã seguinte, à tarde pegava noutro que já não pagava, repetia-se o combinado, pagava uns, muitos outros não.
O grande problema, nesse tempo, eram as férias grandes. Do 10 de Junho ao 5 de Outubro, fechado para o mundo numa aldeia onde aprendi a conhecer a vida, sentia-me dividido: feliz por ver calçar os bois, nascer a criação, entrar nas descamisadas de emoções mil, regar o milho e ir ao curral dar de comer às cabras e ao porco, apanhar os ovos e os cachos, faltavam-me aquelas folhas de papel que eram a minha alegria nos outros oito meses do ano, sentado na cama do 3.º andar da Rua das Padeiras, a ver as horas na Torre da Universidade, onde só muito mais tarde percebi que trabalham pessoas exactamente iguais às outras.
Ardinas era coisa que não havia em quilómetros em redor. O mais fácil era ir à Ponte da Mucela, às bombas da gasolina, onde todos os dias uma camioneta deixava o rolo com dois “Comércio do Porto”. Mas ainda eram uns 8 ou 9 quilómetros e eu, pequenito, herdara do meu pai a bicicleta roda 26 onde tinha de escolher entre sentar-me no selim ou chegar aos pedais. Ou então ir a Poiares, a uma loja de roupa que vendia jornais e onde havia três vezes por semana “A Bola”. A distância aumentava para uns 15 quilómetros, talvez mais. Também podia ir a Penacova, ao largo onde está o busto de António José de Almeida (que o meu tio me diz agora, 40 anos passados, que «ainda é nosso primo, pelo lado do Lavradio»), tocar à campainha daquela porta, o homem vinha à janela, descia o cesto de verga, gritava-se-lhe o título pretendido, já não me lembro se para o 1.º ou o 2.º andar, depositavam-se as moedas e na volta lá vinha o jornal, dobrado cuidadosamente de modo a caber nas orelhas do cesto, amassado o mínimo possível. Que emoção, esta espécie de castelo do sonho, onde os jornais desciam por uma corda!
Mais tarde, felizmente, as coisas mudaram. A aldeia passou a ter uma carreira diária para Coimbra, a 36 quilómetros e duas horas de distância. Partia da aldeia às 7, regressava meio dia depois. A minha mãe (quanto lhe devo! e não só por isto…) esperava à porta da Estação Nova, a camioneta parava mesmo à frente dos degraus, «às 5 menos 5» e entregava o jornal ao motorista, assim a modos que um despacho de mercadoria sem guia de remessa. Eu tinha de estar à porta de casa por volta das sete, sete e um quarto, a carreira abrandava, o braço do motorista esticava-se pelo janelito e começava a minha alegria. Os amigos já não estranhavam o abandono das brincadeiras no caneiro de Vale da Chã, ainda o sol de Verão não se deixara encobrir pelos robustos pinheiros da encosta, nem a falta de comparência aos jogos de cartas pós-jantar, naquelas segundas e quintas-feiras, dias de “A Bola” e mais um ou outro jornal dos dias anteriores, que a minha mãe juntara no mesmo rolo, atado com linhas de costureira ou metido numa saca de pano, que nesse tempo ainda não havia (haveria?) plástico.
Ao sábado, era diferente. A minha mãe trazia ela própria as novas do mundo. E era dia de bailarico.
(escrito em Julho de 2011)

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