Publicam-se em Coimbra dois jornais diários e quatro semanários, sendo que dois destes últimos, “O Despertar” e “O Amigo do Povo”, são os mais antigos de todos, encontrando-se ambos no 96.º ano de publicação.
Deixemos estes dois de parte e analisemos – ainda que de forma superficial – a forma como os outros quatro se referiram às eleições autárquicas no concelho de Coimbra.

PRÉ-CAMPANHA
O facto mais significativo foi o debate organizado pelo Diário As Beiras, que juntou os sete candidatos à presidência da Câmara Municipal no auditório do ISCAC, em Bencanta. O espaço revelou-se pequeno para as mais de 500 pessoas que assistiram à troca de argumentos.
Sucesso assinalável para o mais jovem dos diários que se publicam na cidade, que publicou depois desenvolvida reportagem em seis páginas da edição de 7 de Setembro: uma de descrição; três com as propostas em discurso directo dos vários candidatos; e mais duas de reportagem fotográfica [uma moda que praticamente só existe na Imprensa que se publica em Coimbra e que, volta e meia, como é o repetido caso das fotos nos camarotes do Estádio do Calhabé, assume características de verdadeira “praga”].

Diário As Beiras promoveu debate (edição de 7 de Setembro de 2013)
Diário As Beiras promoveu debate
(edição de 7 de Setembro de 2013)

O papel dos jornais, enquanto actores da vida da comunidade, não é apenas o de noticiar acontecimentos, divulgar opiniões. Eles têm, igualmente, o dever de serem agentes dinamizadores da própria sociedade. Com a organização deste debate, o Diário As Beiras assumiu exemplarmente essa função. Nota (muito) positiva, portanto.

No outro prato da balança esteve, neste caso concreto, o Diário de Coimbra, que não publicou uma linha, uma única, sobre a iniciativa do seu concorrente. Nem antes nem depois. Ou seja: quem lê exclusivamente o Diário de Coimbra ainda hoje desconhece que se realizou o debate, inegavelmente o primeiro “momento alto” (talvez, o maior de todos) da campanha eleitoral em Coimbra. Nota (muito) negativa, portanto.

DIA SEGUINTE
Na segunda-feira, os dois jornais diários dedicaram grande espaço às eleições: 15 páginas (em 40) no caso do Diário As Beiras, 20 páginas (em 48) no caso do Diário de Coimbra.
Ambos destacaram na capa a vitória de Manuel Machado em Coimbra e do PS no distrito. «Machado ganha em Coimbra e PS vence em 12 câmaras no distrito», titulou o Diário As Beiras, numa única frase. O Diário de Coimbra optou por dois títulos distintos: «Socialistas arrasam PSD no distrito» e «Manuel Machado recupera Câmara de Coimbra».

Se de uma competição se tratasse, a vitória na segunda-feira pertenceria ao Diário de Coimbra: apesar de não dispor de cor em todas as páginas, ao contrário do concorrente, o Diário de Coimbra apresentou uma informação mais profunda, mais coerentemente organizada, mais facilmente legível e mais agradável em termos estéticos. Triunfo indiscutível.

Segunda-feira, 30 de Setembro de 2013
Segunda-feira, 30 de Setembro de 2013

[A “noite eleitoral” na Redacção de um jornal é dos momentos de maior “stress” – e um “stress” colectivo. São horas de luta constante contra o relógio, contra os atrasos na divulgação dos resultados, contra o esquecimento de introduzir um ou outro dado numérico nos quadros antecipadamente preparados.
A adrenalina corre. Para quem está no jornalismo por paixão (o estádio mais elevado de exercício da profissão, depois do “jornalismo como ocupação” e o “jornalismo como profissão”) trata-se de momentos de muito trabalho, mas também de prazer intenso. Momentos poucas vezes repetidos.]

OS DIAS SEGUINTES
Se há erros que são desculpáveis nas edições do dia seguinte ao acto eleitoral (ia a escrever, erros que são… inevitáveis), dada a pressão do tempo, o mesmo já não se pode dizer das edições seguintes, que devem servir para explicar (enquadrar) o que acabou de suceder.
Na terça-feira, os dois diários dedicaram quatro páginas às “Autárquicas”. Trabalhos muito semelhantes, com uma nota de destaque para o Diário de Coimbra: publicou declarações de Jaime Soares, ex-presidente da Câmara de Poiares, o “dinossauro” do distrito, que viu a autarquia passar para as mãos do PS ao fim de 37 anos.
Uma curiosidade: ambos os jornais “foram almoçar” com o presidente eleito em Coimbra ao “Cantinho dos Reis”, no Terreiro da Erva.
Na quarta-feira, o Diário As Beiras publicou duas páginas na secção “eleições autárquicas 2013” e o Diário de Coimbra já não publicou qualquer “página especial” sobre o tema.

ESTRANHO
Na quarta-feira, não deixava de ser estranho que os jornais diários de Coimbra continuassem sem publicar duas (quase três…) das quatro principais novidades resultantes das eleições de domingo.

[Um dos principais valores-notícia é a novidade, a originalidade. O jornalismo alimenta-se do que é novo, da “primeira vez”, do inédito.]

O resultado das eleições de domingo, no que ao concelho de Coimbra diz respeito, encerra QUATRO novidades:
1. Manuel Machado foi o vencedor das eleições.
2. Pela primeira vez, um grupo de cidadãos elegeu um vereador.
3. Pela primeira vez, o número dos eleitores que não escolheram qualquer candidato foi superior ao dos que escolheram.
4. Manuel Machado é o presidente eleito com MENOS VOTOS desde que há eleições.

A novidade n.º 1 foi noticiada com destaque. A novidade n.º 2 foi noticiada indirectamente. A novidade n.º 3 foi esquecida. A novidade n.º 4 também foi esquecida.
Estranho – eis a palavra que me ocorre para classificar esta situação.

OS SEMANÁRIOS
Hoje, quinta-feira, “Campeão das Províncias” (no 14.º ano de publicação) e “Correio de Coimbra (no 92.º ano de publicação) dedicam espaços diferentes às eleições.

Quinta-feira, 3 de Outubro de 2013
Quinta-feira, 3 de Outubro de 2013

O “Campeão das Províncias” ignora o assunto na capa, mas dedica-lhe integralmente as páginas 2 e 3. Com grande qualidade. Apelando à memória, refere que o PSD conquistou em 2001 tantas Câmaras como o PS venceu agora – 12. Por outro lado, publica a lista nominal dos membros da Assembleia Municipal de Coimbra, algo que os jornais diários se esqueceram de fazer. E analisa os “números”, fazendo algumas referências [que agradeço] a este blogue.
O “Correio de Coimbra”, menos vocacionado para questões de análise política, chama as eleições à 1.ª página e publica dois textos: «Machado volta à Câmara com a menor votação de sempre» [texto da minha autoria] e «Eleições autárquicas: cor de rosa no distrito de Coimbra».
No conjunto, são trabalhos adaptados às características de cada semanário e com a abordagem que se espera de um jornal que é publicado quatro dias depois do acto eleitoral.

COMUNICADO SEM RESPOSTA
Na manhã da sexta-feira anterior às eleições, o movimento Cidadãos Por Coimbra divulgou um comunicado em que critica duramente o Diário de Coimbra. Algo de inédito.
Trata-se de um texto muito violento, porventura a crítica mais cerrada que alguma vez li dirigida a uma publicação de Coimbra.
Fiquei à espera da reacção do jornal. Um comunicado daqueles merece uma resposta. [Escuso-me de justificar neste momento, dada a extensão do texto, as razões que me levam a pensar assim.]
Pelo que me é dado perceber, não houve qualquer reacção do jornal.

Comunicado do movimento Cidadãos Por Coimbra (27 de Setembro de 2013)
Comunicado do movimento Cidadãos Por Coimbra
(27 de Setembro de 2013)

UMA CURIOSIDADE
A “linguagem das notícias” deve ser rigorosa. Sempre. Mas especialmente quando se comentam números. Porque, como escrevi há dias, «o 1 é o 1 e não pode ser o 2».
Neste “recorte” (página 5 da edição de segunda-feira do Diário de Coimbra) veja-se como a palavra «cerca» destrói a realidade. Substituam no texto a expressão «também cerca» pela palavra «mais» e, então sim, a frase estará de acordo com a realidade.

1-recorte-DC

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