Há dias assim. Os temas abundam mas não sinto especial vontade para escrever.

Poderia escrever sobre o medo que tenho do Estado, um medo construído a pouco e pouco e que, actualmente, é o maior dos medos da minha vida. (Sim, que o Estado não é “pessoa de bem”, como fui compreendendo ao longo dos anos.)

Poderia escrever sobre o que se está a passar na Câmara de Coimbra, que é estranhamente invulgar. A autarquia parece continuar sem distribuir tarefas aos vereadores, como se consegue saber através do semanário “Campeão das Províncias” e do sítio “Notícias de Coimbra” na internet, porque os diários da cidade, que eu tenha reparado, esquecem o assunto.

Poderia escrever sobre o dia em que tive o meu nome num título garrafal, a abrir a página 3 (uma das mais importantes de qualquer publicação) no jornal de um clube. «Já o conhecemos sr. Mário Martins», tudo em maiúsculas. Um dos momentos que considero mais altos destes 40 anos que levo a escrever em público.

Poderia escrever sobre as mulheres da minha vida, que são quatro. O texto anda a bailar-me na mente há semanas, mas ainda não encontrei o dia certo para o passar para o papel ou para um ficheiro do computador.

Poderia também escrever sobre a reportagem que fiz há precisamente 20 anos, entre Berlim Oriental e Kiev, durante 31 dias. A reportagem da minha vida, publicada na revista do Jornal de Notícias, com mais de 200 mil exemplares de tiragem naquela altura. Reportagem que foi capa, que resultou de uma experiência inesquecível e na qual o JN assumiu para comigo uma atitude que nunca esquecerei. Sempre foi assim quando me cruzei com pessoas de dimensão superior.

Poderia escrever sobre outras memórias de uma vida cheia, tantas que estou a pensar colocar algumas delas em livro. A ida para o Porto, o lançamento do Diário As Beiras e de uma rede de correspondentes como nunca mais existiu, as duas reformulações gráficas que coordenei no Diário de Coimbra com 12 anos de intervalo, o aparecimento do Jornal de Coimbra e o trabalho numa minúscula cave da Rua Corpo de Deus, ou a criação do Clube da Comunicação Social de Coimbra e de como o projecto inicial deu lugar a outras realidades, do «Ora diga lá, senhor deputado» ou do «Ora diga lá, senhor vereador», iniciativas que nunca mais tiveram lugar, tal como sucedeu com os prémios Laranja e Limão.

Ainda poderia escrever sobre como acompanhei solitariamente o “Caso N’Dinga” e o reconhecimento que isso me valeu por parte da Académica, dedicando-me uma página inteira da revista “Briosa”, no tempo em que a instituição era muito mais do que, infelizmente, é agora.

Poderia escrever sobre muitas coisas, como vêem. Mas tenho para mim que, sobretudo numa situação como aquela em que me encontro, a escrita tem de ser um momento de prazer.

Não sei se é da constipação, não sei se é do tempo, se é dos compromissos que tenho nos próximos dias. Não sei… O que sei é que qualquer daqueles assuntos só pode ser abordado com paixão. O que não aconteceria se hoje escrevesse sobre eles.

Talvez amanhã. Talvez depois.

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