J. NORBERTO PIRES *

Em 2012 fui alertado para o estado de degradação do Mosteiro de Santa-Clara-a-Nova e fiquei sensibilizado pelo pedido de ajuda que me era feito pela Confraria da Rainha-Santa. Visitei (ver fotos) demoradamente o convento, datado do século XVII, na companhia da Prof. Maria José Azevedo, então vice-presidente da Câmara de Coimbra e vereadora da Cultura, e de várias outra pessoas ligadas à CCDRC. Fiquei chocado com o estado de degradação, de desleixo e de desprezo por um monumento nacional tão importante, e que mostra bem a descoordenação existente entre os vários serviços espalhados pelas regiões, e a respectiva ligação ao Governo central.

Mas isso não foi, por incrível que pareça, o que mais me impressionou. Na verdade, o que mais me impressionou foi a monumentalidade do espaço e as imensas possibilidades que tem. É um edifício enorme, com imensas salas e recantos, claustros fabulosos de uma beleza rara, uma vista sobre a cidade maravilhosa e imenso espaço nas traseiras do edifício (usado pelo exército português, a quem o convento esteve alugado, para construir enormes garagens para material circulante e outro). Imaginei logo imensas coisas que ali podiam ser sediadas, com enorme vantagem, dada a localização única. Se Coimbra queria um local para conferencias e espetáculos de média dimensão, que pudesse ainda adicionar espaços para outras manifestações de cultura e a capacidade de alojar visitantes numa pousada de elevada qualidade, este deveria ser o local a considerar em 1º lugar. O espaço está lá, a possibilidade de edificar o que falta (por exemplo, uma sala de espetáculos de média dimensão também, nas traseiras do edifício) também, a qualidade do espaço, da vista, a história viva em todas as paredes, a ligação à padroeira de Coimbra, a localização, tudo parece certo. Até a urgência em recuperar um local que não resistirá por muito mais tempo.

Num dia, também de 2012, assisti num dos recantos exteriores do Convento a um concerto da Orquestra Clássica do Centro, com Coimbra em linha de vista, e pensei quão fabuloso era aquele local. E imaginei-o utilizado em maior escala, ao serviço da cultura, da memória de uma cidade e de um povo, e do bom-senso. Aquele que preserva a nossa história e o nosso património e lhes dá novas valências e utilizações, gastando com parcimónia, estratégia e inteligência os fundos comunitários de que dispomos e que deveriam ser usados para dar uma nova vida àquilo que nos distingue como povo.

O que vejo por aí são massas volumosas de novos edifícios, construídos de raiz, às vezes a metros daqueles que deveriam ser requalificados, sem uma ideia, sem um plano, cheios de problemas de todo o tipo, que custam os olhos-da-cara a construir, que serão impossíveis de manter, desde logo porque são construídos sem objetivos e sem ter verdadeiramente identificado o problema que pretendem resolver, e que, consequentemente, no final não resolvem problema algum. Adicionam muitos outros.

E ainda se admiram da dívida gigantesca que criamos desde o 1.º Quadro Comunitário de Apoio?

Disse-o e repito: Muito dinheiro, pouca inteligência e nenhum bom-senso.

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3 COMENTÁRIOS

  1. Em 10 de Janeiro o Coro dos Antifos Orfeonistas da Universidade de Coimbra vai cantar para tal causa! Esperamos ainda ir a tempo! O património é nosso e por tal temos de o preservar!

  2. Numa visita que fiz nestas últimas semanas de 2013 em conversa com a pessoa que dá a cara a quem entra para comprar recordações ou quem se lhe dirige para qualquer questão, fiquei a saber (em resposta a uma questão que lhe fiz), que a parte do vitral que está em falta, há longo período, já se encontra disponível na igreja, mas carece de 5000 euros para ser aplicada!!! Aquele vitral que foi oferta da Comunidade da Rainha Santa Isabel do Califórnia, realça em muito aquele espaço, quando atravessado pela luz solar, se reflecte no chão da igreja. É ridículo que por falta de uma verba pouco significativa, esteja e continue a estar sem solução!

    • Sr. José Ferreira,
      Não sei quem lhe transmitiu esses valores, mas não correspondem à realidade.
      Mesmo que fosse uma verba dessas, ela poderá parecer-lhe pouco significativa, mas, para os nossos poucos recursos, representa muito do nosso orçamento.
      O problema é que o vitral precisa de ser todo revisto. O chumbo das ligações precisará certamente de ser substituído. Para se fazer a avaliação, teremos de contactar um especialista (em Portugal, só existe um bom especialista em vitrais). Isso implica montar uma estrutura que consiga alcançar em segurança alturas tão elevadas. Tudo isso representa custos acrescidos.
      O problema não está esquecido e temos irmãos nos EUA a angariar apoios financeiros para a execução do trabalho.
      Há, para já, problemas mais urgentes para resolver, como é o caso da capela-mor e dos retábulos, atacados pelos xilófagos. Já não falo dos graves problemas dos claustros. Por isso, é tudo uma questão de prioridades…

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