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SALVADOR MASSANO CARDOSO *

 

Não consigo compreender o prolongar de certas situações clínicas. Há muito que não ouvia falar de Ariel Sharon, ex-primeiro ministro israelita, que sofreu há oito anos um grave acidente vascular cerebral que o colocou num estado vegetativo. “Sobreviveu”, e “sobrevive”, escrevo este verbo entre aspas, graças às tecnologias avançadas de suporte, caso contrário estaria morto desde então.

Faz-me muita confusão atentar contra a força da morte. Mais do que a força da morte, angustia-me o não respeito pela sua vontade, não da pessoa, mas da própria morte. Noutras condições, noutras épocas, a lei da vida já se tinha apagado e a alma da pessoa libertada.

Não sei o que é, não conheço e não tenho provas sobre a existência da alma, e sempre que falo nela, é no sentido mais poético que posso dar à vida de alguém, com respeito pelas imagens, sons, sentimentos, dores e paixões que comporta. Para mim, alma é isso mesmo, um saco invisível onde se acumulam os mais belos sentimentos, as mais horrorosas dores e as doces e inatingíveis esperanças sempre desejosas de verem a bela luz do sol. Para mim isso é a alma.

Quando leio ou vejo pessoas em estado vegetativo fico incomodado, porque é uma forma de aprisionar a alma impedindo-a de se libertar e correr alegremente para os braços quentes de um sol de amor, divertir-se com o algodão das nuvens e esquecer o que foram as dores. Morrer com dignidade é respeitar a liberdade. Morrer no seu tempo é fugir ao tormento. Deixem que as almas voem no momento mais preciso, ou seja, no dia do seu verdadeiro juízo. Liberdade para as almas. Sempre.

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*Médico

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