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Domingo, 5 Fevereiro, 2023
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Sexo e outras deficiências!… [Salvador Massano Cardoso]

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SALVADOR MASSANO CARDOSO *

Diz Fernando Sebastian, futuro cardeal, que «a homossexualidade é uma forma deficiente de exprimir a sexualidade, porque esta última tem uma estrutura e um objetivo que é a procriação». Ainda por cima, o senhor compara esta “deficiência”, homossexualidade, com outra “deficiência”, a hipertensão de que sofre e que, como tal, tem de corrigir.

Mal sabe o senhor que muitas doenças que atingem o ser humano e, também, os animais, são a tradução de fenómenos adaptativos que permitiram que chegássemos onde estamos, ou seja, o que está na base da hipertensão, por exemplo, são mecanismos que permitiram há centenas de milhões de anos a saída dos animais do meio hídrico para poderem viver em terra. Mal sabe o senhor que certas doenças metabólicas, as tais “deficiências”, segundo o seu juízo, que são muito prevalentes hoje em dia, caso da diabetes, hipercolesterolemia e obesidade, não são mais do que a expressão adaptativa, outrora benéfica e vantajosa em termos evolutivos, mas que agora, face aos estilos de vida que adotámos e ao facto de vivermos cada vez mais, acabam por se manifestar de forma deletéria. Mesmo o facto de conseguirmos chegar a idades avançadas, caraterística da sociedade ocidental, constitui um fenómeno “contranatura” mas que acaba por ser muito agradável ao permitir mais anos de vida, mais anos para aprender e mais anos para amar.

O senhor desconhece que a homossexualidade existe noutras espécies animais, largas centenas, logo, não pode vir a terreiro afirmar que o «objetivo principal e único da sexualidade é a procriação». No caso da nossa espécie não é, serve para isso, naturalmente, mas serve para muito mais, para reforçar laços, sentir a beleza da existência e contribuir para cimentar e perpetuar o amor. Poderia dissertar um pouco mais sobre estes assuntos, mas julgo ser suficiente. De qualquer modo, não posso deixar de manifestar que certas individualidades, ao apontarem para certas “deficiências” na adoção de certos comportamentos, deveriam aprofundar mais os seus conhecimentos.

Para terminar, e dado que se aproxima a hora de jantar – estou com fome! –, penso que o prazer gastronómico deveria ser considerado também como uma “deficiência”. Bastava aos seres humanos ingerirem “matéria orgânica comestível”, que está ao nosso alcance, para satisfazer a necessidade fisiológica primordial que é “matar a fome” e sobreviver. Falo de gastronomia, porque existe, como é fácil de compreender, um certo paralelismo entre o sexo e a alimentação. Para já são os dois mais poderosos motores que garantem a existência do indivíduo e da espécie; em segundo, nós, os humanos, fomos capazes de os transformar em deliciosas fontes de prazer, e há mesmo momentos em que é difícil separá-los…

Vá lá senhor futuro cardeal, trate da sua hipertensão com muito cuidado, não abuse do sal e não permaneça muito tempo à mesa, pode-lhe ser fatal e, quem sabe, se não é, também, na sua perspetiva, mais uma “deficiência” a corrigir… Eu vou corrigir a minha e o quanto antes. Não quero ficar fechado na faculdade. Bom apetite e ótimo jantar para todos.

* Professor universitário. Médico

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