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ANTÓNIO PIEDADE *

«(…) A atual situação ainda é mais grave do que foi no passado, porque falamos, agora, de pessoas que, sendo bem formadas moral e cientificamente, não têm sequer a possibilidade de mostrar o seu valor. São uma espécie de falsas elites. Elites, porque são as melhores, mas falsas, porque não lhes é dada a possibilidade de provar o seu valor na terra-mãe.
Reconhecido este diagnóstico preocupante, ou seja, a percepção do desertar crescente dos portugueses qualificados de Portugal, lançamos o presente manifesto para um compromisso com a ciência, a cultura e as artes. Trata-se de um compromisso dos portugueses consigo mesmos e com os seus melhores para que este potencial seja reconhecido, aproveitado, capitalizado. (…)»
Este é um excerto de um recente manifesto “contra a crise” (pode ser lido na integra aqui) que uma centena de personalidades portuguesas ligadas à ciência, à cultura e às artes subscreveram e tornaram público.
É um apelo veemente ao melhor de nós, dirigido a toda a sociedade portuguesa. Porque a crise é colectiva e não só da política. Cultural e não só económica. É de falta de confiança para além da esperança, corroída pela falta de vergonha de uma classe dirigente impreparada e muito aquém das competências dos milhares de portugueses que, altamente qualificados e formados em Portugal, são obrigados a emigrar indo enriquecer outros países.

Nas últimas duas décadas formaram-se em Portugal milhares de jovens investigadores. A formação foi, e é, de excelência internacional. Resultou de uma estratégia de investimento económico, infraestrutural e pessoal sem precedentes no tear da ciência e tecnologia portuguesas. Essa estratégia foi transversal a diversos governos, independente da proveniência partidária, e esse compromisso frutificou com qualidade e abundância.
De facto, houve um pacto de regime para a ciência portuguesa nos últimos 20 anos. Os resultados mostram que quando nos deixamos de partidarites, e convergimos as acções num desígnio bem definido e estruturado, o país atinge níveis de desenvolvimento impressionantes. Tornamo-nos globais. E sempre que o fizemos tivemos sucesso e até mudámos o curso da história universal.

Corremos agora o risco de amputar o corpo científico desenvolvido. De, cegamente, oferecer aos outros países os melhores de nós. E eles reconhecem e agradecem tamanha vã generosidade. Portugal, envelhecido, fica no restelo e mais pobre.
Precisamos de continuar o compromisso que estabelecemos nas últimas décadas para continuar a desenvolver a produção de conhecimento, e logo, de riqueza. Precisamos de continuar o nosso compromisso com a ciência.

Enquanto isso, os nossos jovens cientistas continuam a receber prémios internacionais. Esta semana foi a vez de uma equipa do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra, liderada por Luís Pereira de Almeida, receber quatro prémios de uma fundação norte-americana, a National Ataxia Foundation, pelo seu trabalho que busca novas terapias para a doença de Machado-Joseph. Esperemos que nenhum deles seja forçado a ter de emigrar.

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