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JOSÉ DA CONCEIÇÃO TABORDA *

Eu não tenho o dom da escrita nem sou assim tão letrado para escrever palavras bonitas. O que escrevo brota, com simplicidade, do meu coração.

Já se passaram muitos anos desde o tempo em que trabalhei, como porteiro, numa Residencial, hoje Hotel, na Avenida Fernão de Magalhães, onde tive o prazer de conhecer e conviver com alguns jogadores da Académica que ali se hospedavam, nomeadamente o famoso “internacional” Rui Rodrigues que, depois de ter representado o Benfica, regressou a Coimbra, para vestir, novamente, a camisola dos estudantes.
A sua educação, simplicidade e humildade abriu caminho a uma forte relação de amizade e convivência agradável entre nós, a ponto, de um dia, o convidar para beber um copo em minha casa. Ali, o modesto petisco, foi regado com uma garrafa de vinho rosé que fez dilatar as veias e agitar a corrente sanguínea.

A noite, calma e serena ia avançando mas ainda deu para irmos ao café da minha aldeia, o Rainha Santa. Sentados ao balcão do estabelecimento, perguntei à proprietária do café, a Senhora Isaura, se ainda tinha a fotografia de uma equipa do Benfica que há muito tempo lhe tinha oferecido, onde figuravam grandes vedetas como Toni, Simões, Vítor Batista, Humberto Coelho, Eusébio, o Rui e tantos outros.

A Senhora Isaura, reconhecendo o Rui e compreendendo a minha intenção, retirou a foto de uma gaveta onde, religiosamente, a guardava. Mostrei-a ao Rui que fixou, emocionado, o seu olhar naquela constelação de estrelas.
Naquele momento apercebi-me, pela linguagem do seu olhar, do seu silêncio e da sua emoção, que a foto o tinha transportado para grandes momentos de felicidade ao serviço do Benfica, de tal forma que não foi capaz de evitar uma lágrima que lhe desceu pela face.

«Que grande equipa, Taborda!», disse com emoção. E de voz embargada e apontando com o dedo para o Eusébio, disse-me com admiração e respeito pelo seu colega. «Estás a ver este ‘macaquito’? Se aos 20 minutos de qualquer jogo estivéssemos empatados a zero, nós dizíamos-lhe: “Então ‘macaquito’ (é hábito os grandes amigos e colegas de equipa apelidarem-se respeitosamente uns aos outros) já está a demorar!? Passados dois minutos ele fazia uma das suas arrancadas e a bola estava dentro da baliza». E a mão desceu até ao bolso para retirar o lenço que enxugou as lágrimas de saudade, que insistiam em correr pelo seu rosto.

Também eu me emocionei ao recordar grandes jogadores, especialmente o tal “macaquito” que se tornou pantera e que foi para mim o meu brinquedo de adolescente, pois fez-me gritar e pular de contentamento pelos golos e jogadas ao serviço do Benfica e da nossa selecção.

Obrigado, Eusébio! Descansa em paz.

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* Arzila (Coimbra)

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