Mário Martins

O programa “Prós e Contras”, da RTP 1, foi emitido ontem a partir do Teatro Gil Vicente em Coimbra. Tema: “Sim ou não às praxes?”.
Contrariando uma prática de anos, decidi assistir ao programa. Por dois motivos principais. Se ele era suscitado pela “tragédia do Meco”, queria ver como esse assunto seria comentado (e, ao mesmo tempo, ver qual a abordagem que seria feita pela apresentadora do programa, professora na Universidade Lusófona). Por outro lado, queria ver como seria analisada a Praxe Académica de Coimbra, um conjunto multissecular de tradições e rituais.
Ao longo do programa fui colocando observações e comentários no Facebook. Publico aqui aqueles que me parecem mais importantes.

I
Dois professores de Lisboa, duas jornalistas de Lisboa e o presidente da Associação Académica de Coimbra no palco do Teatro Gil Vicente.
O que vieram eles cá fazer?

II
Um professor a dizer que Praxe foi extinta em 1969.
Como é que um professor pode afirmar isto?
Sabe ele o que foi o Luto Académico?

III
Professor de Lisboa alude a um “problema circunstancial”.
A expressão “Universidade Lusófona” parece estar proibida.

E fala de massificação, de universidades privadas…
Uma conversa que bem poderia ter sido feita na capital ou nos arredores.

IV
Uma estudante diz que entrou no Movimento Anti-Praxe há uma semana.
Porque houve mortos. (Mas não fala na Universidade Lusófona.)

Confessa que não sabe o que é a Praxe – e que «Então, é preciso definir a Praxe».

V
O realizador do documentário diz que não há alternativa de integração à Praxe.
E diz que é tudo igual em todas as Academias.
Conclusão: não sabe que em Coimbra há uma tradição de séculos.

VI
Fernanda Câncio comete erro histórico: diz que Alberto Martins falou perante Marcello Caetano.
Confirma-se: há quem esteja no programa a falar do que não conhece, do que não viveu.

VII
Presidente da AAC “dá baile” a Fernanda Câncio. [A situação repetir-se-á.]

VIII
Fernanda Câncio: «Democracia, meus queridos. Vá! Eu sou mais velha, têm de me respeitar…».
Fátima Campos Ferreira ameaça com a expulsão da sala de quem se manifesta.

IX
Fátima Campos Ferreira sugere que terminem os aplausos.

X
Presidente da AAC alude às declarações do reitor da Universidade Lusófona perante o silêncio da apresentadora do programa.

XI
Realizador do documentário questionado directamente por um aluno do Porto.
Na resposta, revela desconhecimento sobre as actividades de integração dos estudantes.

(O realizador poderia aproveitar o video da praxe do meu filho, que publiquei aqui há dias. Um aluno a ser praxado na companhia da mãe e de uma prima, na Faculdade de Medicina de Lisboa. Mas se calhar é melhor não utilizar: ia estragar-lhe o documentário…)

XII
Aluna do Algarve refere-se às “color run”.
Mas isso mexe com interesses comerciais, rapariga!
Se calhar até há uma televisão a patrocinar.

XIII
Aluna do Algarve fala de praxe dos jornalistas.
E goza que nem uma perdida.

XIV
Catarina Martins fala de Fascismo.
E diz que a sala [Teatro Gil Vicente] é um símbolo de resistência.

Vê-se que nunca entrou no Teatro Gil Vicente para assistir a um Sarau Académico.
Novidade: fala em invasão de salas de aula.

XV
Catarina Martins: «A Liberdade não existe».

Viva a Liberdade!
[Já agora: quantas participações terá feito aos seus superiores hierárquicos?]

XVI
Professor de Lisboa afirma que já percebeu que a maioria dos presentes no Gil Vicente defende a praxe.
Se ele descesse à cidade, veria uma maioria ainda maior.

XVII
(Perdi cerca de 10 minutos de programa devido a problema técnico.)

Fala um professor da Universidade Lusófona.
Não se refere ao “caso da praia do Meco”.

Diz ser natural das proximidades de Coimbra e gostar da “Trova do Vento que Passa”. A mesma “Trova” que cantámos no Largo da Sé Velha, na segunda metade de 70, quando quiseram proibir a Alma de Coimbra.
E havia uns versos que eu não cantava. Gritava. Estes: «Há sempre alguém que resiste / Há sempre alguém que diz não».
Ontem. Hoje. Amanhã.

XVIII
Professor de Lisboa defende criação de um grupo de avaliação das praxes.
Ricardo Morgado esclarece o professor. Lição!

XIX
[Ocorre-me uma pergunta: quantas humilhações não acontecem dentro das salas de aula, nas salas de exame, perpetradas por professores?]

XX
Fala um repúblico da Prá-Kys-Tão.
Fala de hierarquias. Em tom de condenação.
Mas esconde que nas Repúblicas também há uma hierarquia. (Eu, na República onde vivi, era repúblico de “2.ª categoria”…)

XXI
Acabou.
(Estranhamente, o “caso” concreto que esteve na origem do programa passou ao lado do debate.)

19 COMENTÁRIOS

  1. Há um comentário enviado para este texto que não será publicado. Porque é ANÓNIMO. E a regra básica, aqui, é a mais democrática possível: opinar, dando a cara. Tal como eu faço.

  2. Uns defendem a praxe, outros defendem as touradas, ainda bem que já ninguém defende a inquisição (é que também já foi tradição….)

    O prof . Caldas de Almeida foi o único capaz de dizer a verdade sobre as praxes e ainda deu um chapada de luva branca a um público que tentou abafar a minoria com o seus protestos.

    É triste ver a futura geração do nosso país a aplaudir com vigor um distinto líder com 24 matrículas, que coitado, afinal trabalha….como pode ele tirar o curso?? ( Eu, como muitos outros, trabalhei e estudei e tirei o curso no devido tempo)

    Mais irónico foi ver os mesmos estudantes a parabenizar um senhor professor que fez tudo menos defender a praxe…”ai isso não é praxe” “ai aquilo não é praxe”. Pois bem, “isso e aquilo” foi feito na sua faculdade e acontece e muitas outras faculdades deste país…..Querem continuar a fechar os olhos a esta realidade?

    • Certamente que não sabe que a universidade de coimbra não tem horário pós laboral. Antes de sairem horários ja tem de se estar matriculado e com trabalho é uma sorte ter a possibilidade de ter um horário onde se possam assistir aulas.
      Agora chamar burro ao senhor não é argumento. Até porque ele é o tipo de pessoa que dá o telemóvel aos caloiros nos primeiros dias e diz que se alguém estiver a sentir-se humilhado ou algo do género que lhe ligue 24/7 e que ele tratará de resolver. Têm mais alguém assim no país?
      Poupe-me.. Gosttaria de saber que trabalho tinha para o fazer e qual o curso. Eu neste momento estou num politécnico a tirar o mestrado enquanto trabalho e é impossível fazer no tempo certo como fiz na licenciatura..

    • A sério que toda a gente peça por isto… mas será que são assim tão ceguetas que não percebem que o homem está lá há tanto tempo porque quer? E além disso é ele que paga os custos! que raio têm vcs a ver com isso? irra que até mete nojo

    • D. Joana, porque é que não vai estudar para a Lusófona?!!!!!
      O Psiquiatra fala do que não sabe!!!!….se nem sabia no tempo dele o que era praxe ou capa e batina!….

  3. Mário, apesar de não concordar com tudo o que escreve, porque se calhar temos vivências diferentes de Coimbra, dou-lhe os parabéns por esta síntese do “Prós e Contras” da passada segunda feira.

  4. “Perdi cerca de 10 minutos de programas devido a problema técnico.”
    Foi neste momento que perdeste o Dux da Universidade e Coimbra a falar. Um senhor com mais de vinte matriculas sem ter completado qualquer curso. Um representante digno desta causa. (Trabalhar e estudar é complicado…)

    • Eu digo-te que tenho muita coisa a apontar ao Dux na sua conduta. Mas curiosamente essa não é uma delas uma vez que o senhor é um empresário de sucesso com trabalho feito e créditos firmados. Falar do que não se sabe também é um acto digno tanto de quem defende a praxe como de quem a abomina.

      • Um empresário de sucesso com trabalho feito e créditos firmados? Mas é isso que queremos para um Dux? Um empresário de sucesso? Ou queremos um estudante activo?

  5. Nada tenho a ver com isto, das praxes ou outra coisa similar ou menos similar, Porém, apenas transmitir que – é meu entendimento – estar fraca a argumentação aqui exposta. Carece de maior reflexão. ok?

    Cumprimentos

  6. Como é óbvio, e na qualidade de antiga estudante da Coimbra senti-me ultrajada pela simples escolha da minha cidade para realizar tal pseudo-debate. Só quem não conhece as tradições de Coimbra , a sua Praxe e a vivência estudantill é que poderá compreender a razão da minha indignação. A Lusófona não é uma universidade, é uma máquina de fazer dinheiro e, este debate veio na altura certa para distrair as pessoas de outros problemas tão graves que assolam o País. Em Coimbra a Praxe sempre permanecerá viva- para isso sevem as constantes revisões que lhe são aplicadas. Se o problema reside na Lusófona que aí resolvam o problema. Deixem Coimbra em paz!

  7. Concordo com Mário Martins. O programa foi daqueles em que a montanha pariu um rato. Os últimos programas da Fátima Campos Ferreira tem sido pautados por nível que não justifica a sua visualização, além da falta de educação perante alguns convidados e de uma agressividade imprópria de um “moderador””entrevistador”. As audiências falam por si mesmo. Em relação ao programa própriamente dito foi uma desilusão. Não se aprofundou o tema nem nada parecido. Desilusão completa.

  8. De facto, concordo com a generalidade do que diz Mário Martins, com enorme conhecimento e vivência de causa.
    Já o disse algures, noutro local público, que os media a quem interessa explorar este filão para assegurarem audiências, continuam falar do que não sabem (tal como Fernanda
    Cansio, que mais valia ter estado calada para, pelo menos, não ter feito figura tão deplorável…) e, pior do que tudo, a confundirem a estrada da beira com a beira da estrada. Não consegui compreender a razão da jornalista Fátima Campos Ferreira ter escolhido Coimbra para discutir um assunto que, afinal não foi discutido, nem o critério de escolha para os acompanhantes… Além disso, cada vez esta jornalista parece ter o rei na barriga, tal a forma exageradamente agressiva com que trata a audiência, que é o seu público e quem lhe paga o chorudo ordenado que receba da cal público. Está a ficar insuportável.

  9. Este “Prós e Contras” pareceu tudo menos um debate.
    foi notória a falta de profissionalismos da Senhora Jornalista, estando como mediadora do debate deveria ser o elemento neutro.
    Faltou também aos restantes interveniente explicarem o porquê que diziam que era ou não era praxe.
    Não é dizer “isto não é praxe”, poderiam e deveriam ter dito “na minha opinião isto é ou não praxe porque”.

    Porque foi como alguém disse “o Entendimento do que é a praxe depende sempre de quem observa” podendo ser contra ou a favor.

    Relativamente ao que ocorreu no Meco, tem de entender que o que se iria realizar, não pode ser confundido como Praxe, mas sim como um Ritual Acadêmico da Instituição em causa.

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  11. «Há sempre alguém que resiste / Há sempre alguém que diz não»

    Como este corajoso caloiro da FCDEF da UC a quem os magníficos doutores chamam “burro” e no fim mandam para o c***lho http://www.youtube.com/watch?v=nh-DJHxTkx8

    Ai, como é especial a Praxe coimbrã! Ah não, espera, isto como mostra coisas inconvenientes não é praxe. A praxe sao só as coisas boas.

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