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Sexta-feira, 20 Maio, 2022
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Irlanda: de tigre a gato [Francisco Caleira]

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FRANCISCO CALEIRA *

A recessão transformou o Celtic Tiger rapidamente num gato. O desemprego disparou, o êxodo voltou a fazer sentir-se, aumentando a já enorme diáspora irlandesa, estimada em mais de 40 milhões de pessoas. A função pública foi drasticamente reduzida e… imaginem: políticos e deputados viram os ordenados cortados entre 5,.5% e 10%.

A Irlanda é uma espécie de miniatura de Reino Unido na União Europeia (UE). Parafraseando o personagem da série da BBC “Sim Sr. Ministro”, Sir Humphrey Appleby, um país que «não é a favor, nem contra». A Irlanda tem o Euro, mas não é Schengen, nem Bolonha, nem Lisboa (neste último caso, tem adendas especiais), tal como o Reino Unido e a Dinamarca, que desautorizam a UE de “meter o nariz” em certas áreas da governação do país.

Os factos da crise irlandesa estão mais relacionados com os factos ocorridos do outro lado do Atlântico do que propriamente com alguma coisa que se tenha passado na Europa. O desemprego na Irlanda, entre os mais baixos da Europa no final de 2007, triplica até ao final de 2010. Nesta altura, Brian Cowen, Taoiseah (tradução do irlandês: chefe da tribo) do governo do Fianna Fáil cooligado com o Green Party – a Constituição irlandesa obriga a formar governos maioritários – anunciou a o financiamento da banca irlandesa – em falência devido ao caso do Anglo Irish Bank. Foi o golpe final na economia irlandesa – que se ressentia desde 2008, afectada pelo mesmo tipo de decisão tomada pelo governo de George W. Bush nos Estados Unidos.

A economia irlandesa, movimentada em grande parte pelas grandes multinacionais norte-americanas das novas tecnologias e da indústria farmacêutica, logo directamente dependente da forma como a economia norte-americana se comportava, caiu como um estrondoso KO num ringue de boxe. O Tigre Celta passou a gato para financiar um sector detido em 35% pela banca do Reino Unido – a medida foi impopular e… fatal.

O governo de Brian Cowen cai em desgraça devido às drásticas decisões tomadas de imediato. Cortes no salário mínimo (de 8,65 euros para 7,65 euros por hora), nos subsídios de desemprego e reformas (de 216 euros semanais para 188 euros semanais entre 2010 e 2012) levam à convocação de eleições antecipadas em Março de 2011. O Fianna Fáil é humilhado nas urnas – de 77 deputados passa a 17, tantos como os deputados independentes eleitos nesse acto eleitoral. O Green Party não elege um único deputado. Enda Kenny e o Fine Gael ficam a três deputados da maioria absoluta e cooligam-se com o Labour Party, o segundo partido mais votado, para formar governo.

A Irlanda reclama a reposição do salário mínimo nos 8,65 euros e a UE acede em Junho de 2011. Sarkozy e Merkel exigem que a Irlanda aumente a taxa de IRC (a mais baixa da UE: 12.5%) e perdem: o governo irlandês não acede, mesmo com o duo franco-germânico a ameaçar criar obstáculos ao auxílio financeiro. No final de 2011 os cortes e aumentos de impostos terminam, a recuperação começa aos soluços, mas 2012 acabará por não ser o desejado ano de retoma, como estava previsto.

As limitações do mercado de trabalho levam trabalhadores irlandeses e estrangeiros a procurar outras paragens, com especial incidência no sector da construção. De 400 mil desempregados no início de 2012, os números descem para 290 mil no final de 2013. Desta queda 30% ficam a dever-se ao êxodo contínuo. Quem fica pela Irlanda mantém-se activo no mercado de trabalho devido à mobilidade. A máxima «If you want to keep your job rent a house don’t buy» [«Alugue uma casa, não compre, se quiser manter o seu emprego«] passa à prática para quem fica no país. Entretanto, a função pública irlandesa é remodelada, 25 mil funcionários são dispensados desde o início do programa de auxílio financeiro, os salários de altos funcionários públicos, deputados e governantes são cortados entre 5,5% e 10%.

O futuro promete melhores dias e Enda Kenny anunciou já o aliviar dos impostos sobre os menores rendimentos e a eventual criação de uma nova categoria para os rendimentos mais altos.

Assim vai a política no país que nunca teve um primeiro-ministro socialista, ou social-democrata!

* em Cork (Irlanda)

Francisco-Caleira-autor

 

 

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