web-Coimbra-por-Isa-CortezCoimbra (Foto: Isa Cortez)

 

LICÍNIA GIRÃO *

Choro hoje algumas ruas de Coimbra. Desertas, desabitadas, esquecidas. Eram lugares de memórias, entre lojas, gentes, cafés, tascas, livrarias, discografias, consultórios de poetas, redações de jornais, cinemas e teatros. Os engraxadores, vendedores de jornais e de castanhas, os polícias sinaleiros, de todos a cidade era feita. Com alma e inspiração.

Pela Baixa e pela Alta percorríamos as ruas de paixões acesas. Namorávamos nos jardins que abraçam a cidade, íamos ao cinema nos saudosos Tivoli e Avenida. Ao Teatro no Sousa Bastos. Ouvíamos a música tirada ao vinil e falávamos, muito falávamos pelas ruas da cidade.

Hoje novos espaços surgiram, mas não têm aquele encanto. Podem até responder a todas as necessidades de consumo, mas carecem de alma. Já não tratamos os balconistas pelo nome, nem trocamos confidências com os empregados dos cafés. Os cinemas são mais pequenos, mas menos intimistas. Nos jardins já não há namorados.

Ainda nos reencontramos com a cidade e os amigos em algumas tascas e no suspiro de quem ousou criar espaços alternativos. Temos o Teatro da Cerca de S. Bernardo, ninho da Escola da Noite, a Oficina Municipal do Teatro, a casa do Teatrão, o Pavilhão Centro Portugal com a Orquestra Clássica do Centro, o Conservatório de Música de Coimbra ou mesmo a Casa da Esquina ou o Salão Brasil. Ainda algumas tabernas e cafés.

Há contudo um espaço que ainda nos mantem unidos aos velhos e novos tempos, o Teatro Académico Gil Vicente. Lá vi o meu primeiro teatro, o primeiro bailado, ouvi a primeira orquestra sinfónica, assisti a performances circenses alternativas, ouvi Amália Rodrigues… A situação em que se encontra a sala deixa-me desolada. As cadeiras estão em muito mau estado e o conforto para assistir a um espetáculo não é nenhum. A última vez que lá estive foi em Janeiro, a pessoa que estava a meu lado caiu quando a cadeira se partiu. A do outro lado estava apenas recostada e eu quase encostada ao chão, não consegui ficar além do intervalo.

Certamente que tudo se deve à falta de dinheiro, mas será que não queremos continuar a contar com o Teatro Académico Gil Vicente? Um peditório, um mecenas! A cidade não pode continuar perder referências e identidade.

* redactora do COIMBRA JORNAL

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