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(Foto: ACI Digital)

 

FERNANDO CALADO RODRIGUES *

 

Há acontecimentos que merecem o destaque das primeiras páginas e a abertura dos noticiários e, depois, aos poucos, vão-se esvaziando até desaparecerem da agenda mediática.

A figuras públicas tem-lhes acontecido o mesmo. Em tempos de crise e de falta de lideranças políticas que se imponham, depressa se adere a quem aparece de novo, depositando nele todas as esperanças. O Papa Francisco foi uma dessas figuras no ano que passou. Ganhou a simpatia de crentes e não crentes. Conquistou os meios de comunicação social. Alguns, aliás, acharam que ele é um estratega e que sabe utilizar com mestria o púlpito dos média para passar uma mensagem atualizada e refrescada da doutrina cristã.

Muito do sucesso do Papa resulta da novidade que introduziu no discurso eclesiástico, acompanhando-a de gestos surpreendentes. Na verdade, os valores e os princípios que propõe e as iniciativas que toma estão em linha com o pensamento que já defendia enquanto cardeal de Buenos Aires. Um discurso que, na sua essência, tem mais de dois mil anos, mas que carece de ser atualizado a cada época e em cada contexto.

Na verdade, para um cristão, é difícil dizer algo de novo que o Evangelho não contenha: o desafio é atualizar a sua mensagem. Jesus preocupava-se com os marginalizados, os publicanos e os pecadores. Hoje o Papa fala dos refugiados e dos imigrantes ilegais, preocupando-se com os esquecidos a que chama “periferias existenciais e geográficas”.

Para alguns comentadores ser-lhe-á impossível manter esta novidade de discurso, pelo que acabará por não corresponder às esperanças que nele são depositadas, como aconteceu com Obama e outros líderes. Outros falam até de algum desgaste – e prevêem que durante o próximo ano não venha a merecer o mesmo destaque mediático.

O Papa, no entanto, não parece muito preocupado com a lógica mediática; parece, sim, querer mostrar-se mais coerente entre o que diz e o que faz. Pela minha parte, enquanto padre, acho muito importante que o pensamento do Papa seja traduzido na reforma e no governo da Igreja. Se não o for, será uma desilusão: não por perder a novidade, mas por não conseguir enxertar os valores do Evangelho no mundo contemporâneo.

(texto publicado no Correio da Manhã em 7-02-2014)

* padre da diocese de Bragança-Miranda. Autor do blogue “Igreja e mundo”.

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