Dois investigadores da Universidade de Coimbra conseguiram resultados promissores para melhorar o tratamento de doentes com cancro

 

 ANTÓNIO PIEDADE*

Um dos problemas associado ao tratamento por quimioterapia de doentes com cancro é o da resistência que estes desenvolvem aos fármacos usados, o que reduz em muito a eficácia terapêutica.

É o caso do fármaco cisplatina e de compostos a ele análogos. A cisplatina é usada no tratamento de vários tipos cancros (pulmão, testículo, ovário e bexiga, entre outros) e, para além de ser muito tóxica para as células (sãs e doentes), muitos doentes adquirem resistência à sua acção.

Compreender melhor o mecanismo envolvido na resistência adquirida e reduzir os efeitos colaterais da sua administração, são dois objectivos dos investigadores Maria Paula Marques e Luís Batista de Carvalho, da Unidade de I&D “Química-Física Molecular” da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.

Uma experiência realizada por estes cientistas no Centro de investigação ISIS – que produz o mais potente feixe de neutrões e muões do mundo – sedeado no Rutherford Appleton Laboratory do Science and Technology Facilities Council, perto de Oxford, no Reino Unido, permitiu uma melhor compreensão do modo como a glutationa (antioxidante celular) contribui para a resistência adquirida à cisplatina.

Numa outra perspectiva da sua investigação, os cientistas conseguiram ainda “mascarar” o fármaco com um veículo à base de ciclodextrina (polímero de açucares) para impedir o seu contacto com a glutationa e, assim, fazê-lo chegar eficazmente ao tumor onde exercerá o seu efeito terapêutico.

Os resultados altamente promissores alcançados nestas experiências mereceram destaque na página oficial do ISIS – science “highlight” (http://bit.ly/NQf416), segundo um comunicado da Universidade de Coimbra.

Perceber como «a glutationa sequestra a cisplatina, impedindo-a de chegar ao alvo em doses apreciáveis – (apenas uma pequena percentagem da dosagem administrada ao doente chega às células cancerígenas) – e encontrar uma forma de ultrapassar este tipo de resistência, permitirá desenvolver formulações farmacológicas mais eficazes e menos tóxicas para o doente», explicam Maria Paula Marques e Luís Batista de Carvalho no mesmo comunicado.

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Maria Paula Marques e Luís Batista de Carvalho

As próximas etapas desta investigação passam pela realização de novas experiências no ISIS que terão o objectivo de verificar se a cisplatina encapsulada em ciclodextrinas não é sequestrada pela glutationa celular.

Caso se obtenham resultados positivos, será então possível avançar para ensaios pré-clínicos e clínicos, de modo a testar a viabilidade da aplicação prática destas novas formulações. «Esperamos provar que a cápsula de ciclodextrinas protege eficientemente a cisplatina, sendo assim um bom transportador até ao alvo. A confirmar-se a eficácia desta estratégia, este veículo poderá também reduzir os efeitos secundários do fármaco, já que protege as células sãs dos seus efeitos nocivos. Poderá igualmente permitir que o tratamento até agora administrado exclusivamente por via intravenosa possa ser feito por via oral, aumentando significativamente o conforto e a qualidade de vida do doente», destacam os investigadores no comunicado da UC.

Este é um bom exemplo da investigação de excelência desenvolvida na nossa Universidade, em que uma investigação fundamental pode ter aplicação directa na qualidade de vida dos pacientes com cancro.

 * consultor científico no projecto Ciência na Imprensa Regional / Investigador na Universidade de Coimbra

Antonio-Piedade-faixa

 

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