13.4 C
Coimbra
Quinta-feira, 30 Junho, 2022
InícioDESTAQUESonhos...

Sonhos… [Mário Nicolau]

DABn4

Capa do n.º 4 do Diário As Beiras

 

MÁRIO NICOLAU *

Já passaram 20 aos. Escrevi nele durante 17. Sobram memórias, claro. O desafio era grande, enorme: construir um jornal novo e um novo jornal para Coimbra. Eu e o Mário Martins agarramos o Desporto: em equipa que ganha não se mexe! O slogan durou, se durou. E a equipa cresceu, olhos nos olhos.

A rede de correspondentes foi construída em dia de relato, in loco, ou seja: fazia-se o relato e no intervalo procurava-se na assistência quem queria assumir o desafio. Olhos nos olhos. E foram tantos. E com tanta amizade!

Foram muitas, também, as personalizadas que aderiram à nossa saudável loucura de transformar o Desporto, e por via dele o Diário As Beiras, numa marca demonstrativa da qualidade de Coimbra e da Região. Sempre olhos nos olhos. Nunca escondemos o jogo como se faz agora, muitas vezes no papel e ainda mais no online.

A primeira Gala do Desporto foi um exemplo da vaga de fundo que construímos. Emocionante…

Tanto como os suplementos de Desporto com mais de 30 páginas escritos e revistos de domingo para segunda-feira. Heróico! E as sandes do Abílio que o Mário Martins pagava com gosto a toda a equipa, incluindo as meninas (e meninos…) que recolhiam os relatos? E o Diário As Beiras sempre a crescer. E nós também. Cheirava a escola…

Melhor, só “picar” das linhas dos PT em Chaves (e sempre que necessário…) para enviar o texto, através do primeiro Mac portátil, para a redacção; e o encontro com o GNR que não gostou da façanha? A identificação do repórter – é assim que gosto de ser tratado… – ficou guardada no livrinho negro do Guarda. Mas nunca deu em nada. Ficou-me o conselho: “tenha juízo! Você é novo, compreendo, mas não abuse, não abuse”. Pois.

Nesse dia eu e o Jorge Neves, o repórter fotográfico, voámos para o Porto para revelar os rolos e chegar a Taveiro já com as fotografias prontas para incluir na edição. Lembro a vermelhidão do Mário Martins, a gravata solta, a dedicação, o exemplo. “Aqui trabalha-se”, atirava. E a malta acelerava, encarando o mau feitio como uma marca distintiva dos homens grandes, aliciadores de personalidades.

A gente que dali saiu, daquela memorável equipa do Desporto do Diário As Beiras, deu nas vistas, garantiu trabalho, prolongou os ensinamentos e a experiência adquirida. Não há dinheiro que pague um estágio daqueles.

Mais um episódio: jogava o Benfica e a secção seguia o encontro pela televisão. O Benfica marca e cá o rapaz salta como uma mola e grita: “golooooooo!”. O hábito foi criado na Rádio Nova, no Porto, quando os camaradas vestidos de azul e branco até à malta utilizavam as secretárias como bancadas. E gritavam, se gritavam. E eu também, quando jogava o Benfica. E eles respeitavam. Contra gosto, mas respeitavam. Dessa vez, porém, em Taveiro, o director executivo Lino Vinhal não gostou do número do jovem jornalista e saiu do gabinete para pôr ordem na casa. Engoli em seco, mas da mesa do canto, a mesa do Mário Martins surgiu o salvo contudo: “Ò doutor, Desporto é emoção!”. E o reparo terminou ali.

Há mais, muito mais. Mas vou guardar “o resto” para um livrinho que o Mário Martins há-de ajudar a escrever. O meu início, no Diário As Beiras, foi curioso. Ainda trabalhei no semanário As Beiras e acompanhei todo o processo de transição. O primeiro relato – um Espinho-Académica – tinha 500 caracteres, pelo que mal dava uma breve, mas tinha de encher a página. O Cabanas, chefe de redacção na altura, sorriu… E a Carla (Fonseca) disse-me que tinha de “esticar”. Nesta arte do crescimento, os primeiros tempos do Diário As Beiras foram de debate: sobre a concorrência – o jornal Público era o nosso adversário directo… -, o livro de estilo – ninguém sabia muito bem se devia ser igual ao do Público ou ao da Lusa ou outra coisa qualquer – e o posicionamento do Jornal.

Reuniões e mais reuniões. O Rui (Avelar) resistia à pressão da adminstração: “então, nunca mais há jornal?!”. E o grafismo? E a derrapagem da rotativa? Recordo o João Mesquita: foi uma honra trabalhar com o presidente do Sindicato. Como entendo as saudades dos amigos do João espelhadas no Facebook…

Passaram 20 anos. Escrevi no Diário As Beiras durante 17. Foi escola, foi vida.

* jornalista da equipa inicial do Diário As Beiras

RELATED ARTICLES

2 COMENTÁRIOS

  1. Ali trabalhava-se… Adorei as tuas memórias, Mário Nicolau. Bem mais positivas que as minhas. Também, deste litrada durante 17 anos. “Caso” mais sério do que qq casamento? Gostei de ler-te, membro de equipa “em que se não mexe, porque ganhadora”…

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

- Advertisment -

Most Popular

Recent Comments

Célia Franco on Redacção da TSF ocupada
Maria da Conceição de Oliveira on Liceu D. Maria: reencontro 40 anos depois
maria fernanda martins correia on Água em Coimbra 54% mais cara do que em Lisboa
Eduardo Varandas on Conversas [Vasco Francisco]
Emília Trindade on Um nascimento atribulado
Emília Trindade on Sonhos… [Mário Nicolau]
Emília Trindade on Sonhos… [Mário Nicolau]
José da Conceição Taborda on João Silva
Cristina Figueiredo on Encontro Bata Azul 40 anos
Maria Emília Seabra on Registos – I [Eduardo Aroso]
São Romeiro on Encontro Bata Azul 40 anos
Maria do Rosário Portugal on Ricardo Castanheira é suspenso e abandona PS
M Conceição Rosa on Quando a filha escreve no jornal…
José Maria Carvalho Ferreira on COIMBRA JORNAL tem novos colaboradores
Maria Isabel Teixeira Gomes on COIMBRA JORNAL tem novos colaboradores
Maria de Fátima Martins on Prof. Jorge Santos terminou a viagem
margarida Pedroso de lima on Prof. Jorge Santos terminou a viagem
Manuel Henrique Saraiva on Como eu vi o “Prós e Contras” da RTP
Armando Manuel Silvério Colaço on Qual é a maior nódoa negra de Coimbra?
Maria de Fátima Pedroso Barata Feio Sariva on Encarnação inaugurou Coreto com mais de 100 anos
Isabel Hernandez on Lembram-se do… Viegas?
Maria Teresa Freire Oliveira on Crónica falhada: um ano no Fundo de Desemprego
Maria Teresa Freire Oliveira on REPORTAGEM / Bolas de Berlim porta-a-porta
Eduardo Manuel Dias Martins Aroso on Crónica falhada: um ano no Fundo de Desemprego
Maria Madalena >Ferreira de Castro on Crónica falhada: um ano no Fundo de Desemprego
Eduardo Manuel Dias Martins Aroso on INSÓLITO / Tacho na sessão da Câmara de Miranda
Ermenilde F.C.Cipriano on REPORTAGEM / Bolas de Berlim porta-a-porta
Eduardo Manuel Dias Martins Aroso on De onde sou, sempre serei
Carlos Santos on Revolta de um professor
Eduardo Varandas on De onde sou, sempre serei
Norberto Pires on Indignidade [Norberto Pires]
Luis Miguel on Revolta de um professor
Fernando José Pinto Seixas on Indignidade [Norberto Pires]
Olga Rodrigues on De onde sou, sempre serei
Eduardo Saraiva on Pergunta inquietante
mritasoares@hotmail.com on Hoje há poesia (15h00) na Casa da Cultura
Eduardo Varandas on Caricatura 3 (por Victor Costa)
Maria do Carmo Neves on FERREIRA FERNANDES sobre Sócrates
Maria Madalena Ferreira de Castro on Revalidar a carta de condução
Eduardo Saraiva on Eusébio faleceu de madrugada
Luís Pinheiro on No Café Montanha
Maria Madalena Ferreira de Castro on Eusébio faleceu de madrugada
José Maria Carvalho Ferreira on José Basílio Simões no “Expresso”
Maria Madalena Ferreira de Castro on Carta de Lisboa
Manuel Fernandes on No Café Montanha
Rosário Portugal on Desabamento na Estrada de Eiras
manuel xarepe on No Café Montanha
Jorge Antunes on Mataram-me a freguesia
António Conchilha Santos on Nota de abertura
Herminio Ferreira Rico on Ideias e idiotas!
José Reis on Nota de abertura
Eduardo Varandas on Caricatura
Eduardo Varandas on Miradouro da Lua
Célia Franco on Nota de abertura
Apolino Pereira on Nota de abertura
Armando Gonçalves on Nota de abertura
José Maria Carvalho Ferreira on Nota de abertura
Jorge Antunes on Nota de abertura
João Gaspar on Nota de abertura
Ana Caldeira on Nota de abertura
Diamantino Carvalho on Mataram-me a freguesia
António Olayo on Nota de abertura
Alexandrina Marques on Nota de abertura
Luis Miguel on Nota de abertura
Joao Simões Branco on Nota de abertura
Jorge Castilho on Nota de abertura
Luísa Cabral Lemos on Nota de abertura
José Quinteiro on Nota de abertura
Luiz Miguel Santiago on Nota de abertura
Fernando Regêncio on Nota de abertura
Mário Oliveira on Nota de abertura