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Capa do n.º 4 do Diário As Beiras

 

MÁRIO NICOLAU *

Já passaram 20 aos. Escrevi nele durante 17. Sobram memórias, claro. O desafio era grande, enorme: construir um jornal novo e um novo jornal para Coimbra. Eu e o Mário Martins agarramos o Desporto: em equipa que ganha não se mexe! O slogan durou, se durou. E a equipa cresceu, olhos nos olhos.

A rede de correspondentes foi construída em dia de relato, in loco, ou seja: fazia-se o relato e no intervalo procurava-se na assistência quem queria assumir o desafio. Olhos nos olhos. E foram tantos. E com tanta amizade!

Foram muitas, também, as personalizadas que aderiram à nossa saudável loucura de transformar o Desporto, e por via dele o Diário As Beiras, numa marca demonstrativa da qualidade de Coimbra e da Região. Sempre olhos nos olhos. Nunca escondemos o jogo como se faz agora, muitas vezes no papel e ainda mais no online.

A primeira Gala do Desporto foi um exemplo da vaga de fundo que construímos. Emocionante…

Tanto como os suplementos de Desporto com mais de 30 páginas escritos e revistos de domingo para segunda-feira. Heróico! E as sandes do Abílio que o Mário Martins pagava com gosto a toda a equipa, incluindo as meninas (e meninos…) que recolhiam os relatos? E o Diário As Beiras sempre a crescer. E nós também. Cheirava a escola…

Melhor, só “picar” das linhas dos PT em Chaves (e sempre que necessário…) para enviar o texto, através do primeiro Mac portátil, para a redacção; e o encontro com o GNR que não gostou da façanha? A identificação do repórter – é assim que gosto de ser tratado… – ficou guardada no livrinho negro do Guarda. Mas nunca deu em nada. Ficou-me o conselho: “tenha juízo! Você é novo, compreendo, mas não abuse, não abuse”. Pois.

Nesse dia eu e o Jorge Neves, o repórter fotográfico, voámos para o Porto para revelar os rolos e chegar a Taveiro já com as fotografias prontas para incluir na edição. Lembro a vermelhidão do Mário Martins, a gravata solta, a dedicação, o exemplo. “Aqui trabalha-se”, atirava. E a malta acelerava, encarando o mau feitio como uma marca distintiva dos homens grandes, aliciadores de personalidades.

A gente que dali saiu, daquela memorável equipa do Desporto do Diário As Beiras, deu nas vistas, garantiu trabalho, prolongou os ensinamentos e a experiência adquirida. Não há dinheiro que pague um estágio daqueles.

Mais um episódio: jogava o Benfica e a secção seguia o encontro pela televisão. O Benfica marca e cá o rapaz salta como uma mola e grita: “golooooooo!”. O hábito foi criado na Rádio Nova, no Porto, quando os camaradas vestidos de azul e branco até à malta utilizavam as secretárias como bancadas. E gritavam, se gritavam. E eu também, quando jogava o Benfica. E eles respeitavam. Contra gosto, mas respeitavam. Dessa vez, porém, em Taveiro, o director executivo Lino Vinhal não gostou do número do jovem jornalista e saiu do gabinete para pôr ordem na casa. Engoli em seco, mas da mesa do canto, a mesa do Mário Martins surgiu o salvo contudo: “Ò doutor, Desporto é emoção!”. E o reparo terminou ali.

Há mais, muito mais. Mas vou guardar “o resto” para um livrinho que o Mário Martins há-de ajudar a escrever. O meu início, no Diário As Beiras, foi curioso. Ainda trabalhei no semanário As Beiras e acompanhei todo o processo de transição. O primeiro relato – um Espinho-Académica – tinha 500 caracteres, pelo que mal dava uma breve, mas tinha de encher a página. O Cabanas, chefe de redacção na altura, sorriu… E a Carla (Fonseca) disse-me que tinha de “esticar”. Nesta arte do crescimento, os primeiros tempos do Diário As Beiras foram de debate: sobre a concorrência – o jornal Público era o nosso adversário directo… -, o livro de estilo – ninguém sabia muito bem se devia ser igual ao do Público ou ao da Lusa ou outra coisa qualquer – e o posicionamento do Jornal.

Reuniões e mais reuniões. O Rui (Avelar) resistia à pressão da adminstração: “então, nunca mais há jornal?!”. E o grafismo? E a derrapagem da rotativa? Recordo o João Mesquita: foi uma honra trabalhar com o presidente do Sindicato. Como entendo as saudades dos amigos do João espelhadas no Facebook…

Passaram 20 anos. Escrevi no Diário As Beiras durante 17. Foi escola, foi vida.

* jornalista da equipa inicial do Diário As Beiras

2 COMENTÁRIOS

  1. Ali trabalhava-se… Adorei as tuas memórias, Mário Nicolau. Bem mais positivas que as minhas. Também, deste litrada durante 17 anos. “Caso” mais sério do que qq casamento? Gostei de ler-te, membro de equipa “em que se não mexe, porque ganhadora”…

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