MÁRIO MARTINS

São muitas as memórias relacionadas com o nascimento do Diário As Beiras, há 20 anos atrás, no dia 15 de Março: as instalações precárias (o jornal ocupou o espaço de uma antiga fábrica de descasque de arroz, em Taveiro), os computadores, a criação da rede de correspondentes (que levou à publicação de um anúncio no… Diário de Coimbra), os demorados almoços de quase todos os dias, a decisão de trocar o maior jornal português da altura (o Jornal de Notícias) por um projecto em embrião, o aumento de salário logo no primeiro mês (!), a organização das fotografias (eram… diapositivos), o recrutamento da “equipa do Desporto”, etc., etc.

Falar de todos estes assuntos num único texto é impraticável, sobretudo no ambiente da internet, mas escolher um tema entre tantos também não é nada fácil.
Por isso, decidi escrever vários textos, cada qual sobre um aspecto específico da gigantesca aventura que é o lançamento de um jornal diário. Faço-o com prazer. Por um lado, porque me permite recordar a participação activa no projecto. Por outro, porque foram tempos felizes, apesar de um ou outro “mas”.

O DIA 14 DE MARÇO DE 1994

A publicação do Diário As Beiras andava a ser preparada, pelo menos, desde Outubro do ano anterior. Em finais desse mês, princípios de Novembro, convidaram-me a integrar a equipa. Recusei o convite, por razões éticas: tinha assumido em Junho de 1993 o cargo de coordenador da secção de Política/Economia do Jornal de Notícias e não me parecia correcto abandoná-lo tão precocemente.
Em meados de Janeiro, porém, decidi aceitar o convite e regressar, de “armas e bagagens”, a Coimbra. [As motivações serão explicadas noutro texto.] E comecei, entusiasmado, a preparar o trabalho: fazer nascer do zero uma secção de Desporto.

No dia 14, como habitualmente, estava sentado à secretária quando, ao final da manhã, os dois investidores do jornal (António Abrantes e António Teixeira) entraram na Redacção e disseram, categóricos, aquilo que para mim era impensável: “O jornal sai amanhã!”.
Estavam fartos de esperar.

Tentei demovê-los, salientando que ainda não tinha sido feito qualquer “número 0”, que ainda não tinha sido impresso qualquer jornal e que seria um risco tremendo fazer sair o jornal, assim de repente, no dia seguinte.
Mas eles estavam determinados. Deveriam ter tomado a decisão no fim-de-semana e nessa segunda-feira, dia 14, entraram no jornal para anunciar um facto consumado. E assim foi.
Ainda fui falar com o director do jornal, o advogado Joaquim Rosa de Carvalho, alertando-o para os perigos. Concordou comigo, foi falar com os proprietários, mas nada conseguiu. O Diário As Beiras iria mesmo para as bancas no dia seguinte.

E foi. Tarde e a más horas, mas foi.
Depois de uma noite quase dramática, porque a máquina de imprimir começou a rodar e… partiu.
Foi por causa disso que, no primeiro dia do Diário As Beiras, só houve exemplares impressos quando o sol já ia bem alto. Por volta do meio-dia.

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Os problemas de impressão do n.º 1 do Diário As Beiras são bem visíveis nesta foto. O jornal fotografado é o existente na Biblioteca Municipal de Coimbra

1 COMENTÁRIO

  1. Agora que falas nisso, Mário, o número 0, sempre em preparação, “abortou”? Nunca chegou a ver a luz do dia, nem pelas 12h 00 TMG. Sorte a minha – e de outros -, simples repórteres que se não preocupam com assuntos maiores!? Gente boa, e valente, naquela redacção . Não muitos mas muito bons 😀

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