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Capa do n.º 3 do Diário As Beiras

 

EMÍLIA TRINDADE *

Ora, ora, ora. Antes do Diário “As Beiras” de que me lembro eu?
Do semanário homónimo, seu legítimo progenitor, pois claro. E lembro-me bem. Mais: tenho até saudades. E muitas. Tão só porque era colorido – ao contrário do cinzentão “calinas”, o institucional diário da cidade por onde, pouco antes, eu havia passado…
Verdade seja dita, já nem sei quando e como fiz a troca. Sei apenas porquê: pela cor, já disse!
Porque ainda que, membro retardatário, fui muito bem acolhida no seio daquela pequena família que, apesar de reduzida, fazia grandes milagres. Eram escassos os recursos? Ora, dava-se o litro – mais do que por obrigação, por puro prazer. Inspirava-se empenho e expirava-se brio (no produto final). Respirava-se coragem. Um verdadeiro bálsamo…

Claro que “As Beiras” semanário tinha os seus quês – e eu, os meus senãos. Ou vice-versa.
De que me lembro? De sair, um dia, desvairada do r/c do prédio onde funcionavam, paredes meias, jornal e rádio. De rodar a chave na ignição e, prego a fundo, disparar em contramão, viaduto acima. Cega de raiva, por me ter calhado em sortes fazer a cobertura do PSD – e da campanha de Cunha Vaz, insigne médico desta urbe mas candidato frouxo, como se viu…. Não queria mesmo nem PSD nem PS! (Ainda hoje mantenho essa convicção – a repulsa aos Centrões!) Felizmente que, recém-inaugurado, o viaduto não tinha ainda movimento e me não cruzei com nenhum incauto e cumpridor automobilista…
De que me lembro mais? De estar uma noite a escrever um artigo para 1.ª página e de receber o telefonema da minha irmã a confirmar as piores suspeitas: o pai estava condenado! Lembro-me das palavras tiradas a ferros, por entre soluços e lágrimas que, ainda que me esforçasse, não controlava. Lembro-me da solidariedade dos poucos que, àquela hora da noite, ainda se mantinham, à minha espera e do meu texto, na redacção. O título terá sido “Um zoo às portas de Coimbra”. Em Antanhol, julgo. Se a memória me não falha.

De que me lembro mais? Lembro-me muito – e bem, e com saudade -, do Franklim e da Carla Fonseca cuja destreza a paginar me faziam roer de inveja. Lembro-me da belíssima equipa de repórteres fotográficos, Meneses e Jorge Neves (o último, carinhosamente tratado por Nuzo) e dos excelentes jornalistas que acreditavam então, tão simplesmente, que informar é preciso – com isenção, já se vê. Mas sempre, sempre, com paixão!?
De que me lembro mais? Do último número do semanário. Um deserto de ideias. Lembrei o ardina do Stuart Carvalhais – uma cópia da última edição Diário de Lisboa, jornal onde tinha estagiado e fechado portas havia não muito tempo. À falta de melhor, em cima do joelho, sugestão aceite. Apenas o título foi alterado. Em vez de “São mesmo as últimas”, do derradeiro DL – e porque não era mesmo um adeus -, optou-se por um simples “Até já”.
E foi. Ao contrário do vespertino da capital, “As Beiras” regressaram. Como diário. Saído do centro da cidade, para Taveiro, o jornal renasceu. Reinventou-se. Com equipamento de luxo, – até rotativa própria -, corpo redactorial reforçado, aguerrida equipa de publicidade. Novas chefias, quiçá novas orientações? E para lá me “deslocalizei”, com o resto da “família” e mais uns quantos valiosos membros. Entre eles, João Mesquita, à época no Público, a fazer a cobertura do Parlamento. Incondicional amante de Coimbra, apesar de responsabilidades acrescidas, João não declinou o convite e trouxe no bolso, entre outras valias, o livro de estilo do “novel diário de referência” do país; que burilou, burilou, burilou. Essa e outras arestas!

E tudo corria tão bem. Para todos. Eu, para além das reportagens – lembro-me de ter feito algumas, sozinha e/ou em parceria, que voltaria ainda hoje a assinar -, fiquei responsável por uma coluna diária que dava pelo nome: “Há 20 anos” …. Uma seca (!?) que implicava “engolir” religiosamente, ao mata-bicho, a 1.ª página do Diário de Coimbra de há duas décadas (então único jornal na cidade) e, agarrando nas parangonas, tentar elaborar “algo digestível”.
E tudo corria tão bem? Até que… um célebre dia, na agenda, me apareceu marcado um serviço no meu dia de folga. Enganos. Que também os há. Disponibilidade para cá, disponibilidade para lá, eis que João Mesquita se oferece, de pronto, a alinhar. Verdade que era trabalho. Mas também prazer. Baptista Bastos era um velho amigo das andanças por Lisboa e um óptimo pretexto para uma longa cavaqueira. Assim terá sido. Palavra puxa palavra, a entrevista prolongou-se noite dentro e o João ultimou o texto já de madrugada, senão mesmo de manhãzinha. Ao certo, sem consultar o meu “arquivo”, não posso garantir sequer se a entrevista saiu ou não? Truncada.
Mas lembro-me bem, (oh se lembro!), que censura e apadrinhamento falaram então muito mais alto. Porque BB, na linguagem que tão bem se lhe conhece, garantia que entre ele e Cavaco Silva «havia uma enorme e incontornável distância: quilómetros e quilómetros de livros». Iletrado, inculto, analfabeto: assim apelidava, sem papas na língua, Baptista Bastos o nosso primeiro-ministro de então. E “naturalmente” esta pequena passagem poderia causar dissabores (eu e outros soubemos a quem, pois claro). Munidos de “lápis azul”, sem apelo nem agravo, os editores “(ir)responsáveis” tentaram excluir a dita citação. De nada valeu ao João Mesquita barafustar, chamar os bois pelos nomes, garantir que a entrevista sairia na íntegra ou nada feito …
Foi convidado a sair, perdeu o emprego, ficou pendurado durante oito meses? Talvez mais. Ele, que deu corpo e ALMA ao inovador projecto arrastava consigo mais três ou quatro (tão poucos!) que se haviam chegado à frente, organizando jantares de apoio e gritando basta à posição dos “mandadores”.
Quem ficou? Quem lá permanece, desde então. Aqueles que não tiveram a coragem de comprometer-se, sendo solidários com o melhor jornalista de Coimbra e arredores. E o mais íntegro, também.

Ah, sim, quase me esquecia. O Diário As Beiras comemora 20 anos de existência. E no primeiro número consta a minha assinatura (coisa de que já me nem lembrava!). Parabéns? Claro que não. Já nem jornalista sou. Mas o meu compromisso com a verdade mantém-se e, a ser honesta e verdadeira, devo, ao invés, endereçar os pêsames. Ao jornal. Que de semanário arrojado e colorido passou, por artes do capital, a diário cinzentão e comprometido com o(s) poder(es). Em 2044 festejará o cinquentenário. Se ainda existir, prevejo que seja negro! De arrepiar?!

NOTA DE RODAPÉ – Nem de propósito. Fez há dias (12 de Março) cinco anos que o João se despediu. Ou nós, dele. E gente digna merece ser tratada com dignidade. Eternamente
Mais do que um prazer, um privilégio.
Mais do que uma lição, um exemplo.
Bem hajas, querido amigo João.

* jornalista da equipa inicial do Diário As Beiras

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