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Capa do n.º 2 do Diário As Beiras

 

RUI AVELAR  *

 

Um dos aspectos que me seduziram no ensaio do diário As Beiras foi a hipótese de se pôr de pé um projecto editorial assente na filosofia do chamado “capitalismo popular”, pois tratava-se de uma maneira de ajudar a enraizá-lo na sociedade conimbricense.

Dirigia eu a Delegação de Coimbra da agência noticiosa Lusa quando, em 1993, os empresários António Abrantes e António Teixeira me convidaram para chefiar a Redacção do futuro diário. Acedi, depois de ter iniciado a carreira de jornalista no Diário de Coimbra (DC), por ser adepto da concorrência e entender que era possível As Beiras representar uma lufada de ar fresco no panorama da Imprensa.

Com a ajuda de amigos (entre eles Fausto Correia, falecido em 2007), facultei a António Abrantes um elenco de perto de meia centena de potenciais investidores, mas o projecto de “capitalismo popular” morreu nas cascas.

Estive durante pouco mais de meio ano ao serviço de As Beiras e confesso ter encarado com generosidade a ideia de o diário ser propriedade de uma sociedade anónima que mobilizasse dezenas de accionistas. Tratava-se, por um lado, de contribuir para o enraizamento do projecto no âmbito da comunidade onde despontou e, por outro, de evitar tentações hegemónicas.

Sem receio de vir a ser acusado de tecer encómios ao meu actual patrão, Lino Vinhal (director do “Campeão”), também confesso ter-me empenhado no sentido de ele dar o seu contributo, sobretudo enquanto gestor, para a passagem de As Beiras de semanário a quotidiano.

Volvidos 20 anos, sinto que o projecto do novo diário ajudou, aqui e além, ao rejuvenescimento do DC.

Talvez Coimbra e a região envolvente nem sempre tenham desfrutado da mais-valia que os dois diários representam para ambas, mas não se pense que a «culpa» é apenas deles. Parafraseando Fernando Assis Pacheco, direi que Coimbra é uma cidade onde até os progressistas são conservadores.

As nossas elites vivem, frequentemente, demasiado arredadas da realidade local. É pena, pois, como ensinou o poeta Miguel Torga, o universal é o local sem paredes!

* director-adjunto do semanário Campeão das Províncias

1 COMENTÁRIO

  1. Texto irrepreensível, como seria de esperar. O final, como manda a tradição, com chave de ouro – citando até um trasmontantano de Coimbra – Adolfo Rocha – “o universal é o local sem paredes!” – Mas as belas prosas – e poesias – não são mesmo suficientes… Os homens – e mulheres -, mais do que por palavras, afirmam-se por acções. Sei-o eu, sabe-lo tu, Rui? E sabes, s
    ei que sabes, tudo o resto …

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