w-Hugo-Gonçalo-Oliveira

Hugo Gonçalo Oliveira, o “pai do poeta informático”

 

ANTÓNIO PIEDADE *

No Dia Mundial da Poesia que se celebra hoje, dia 21 de Março, e ainda na alvorada da Primavera que começou ontem, iniciemos esta crónica com um soneto:

 

[symple_box color=”green” text_align=”left” width=”100%” float=”none”]

que a uma natural ou nativa
onde a estação da primavera
que coisa segue inspiração fera
artificial negra sem artífice

não há sinfonia sem harmonia
onde a composição da poesia
um dia natural outro postiço
um natural porto o nascidiço

com natural e puro coração
não fica chama nem inspiração
na sua harmonia apolínea

por mais poética que poesia
por mais simetria que harmonia
a linda máquina computador
[/symple_box]

 

O seu autor não é um ser humano, mas sim um programa de computador, um sistema informático inteligente designado por “PoeTryMe”. Este é o primeiro “poeta artificial” português e foi desenvolvido por Hugo Gonçalo Oliveira, investigador da Universidade de Coimbra (UC). Segundo este cientista, o sistema que desenvolveu ao longo dos últimos três anos possui uma inspiração sem limites e é capaz de gerar poemas em menos de um minuto.

O “PoeTryMe” é um «sistema informático inteligente que se apoia em redes de palavras, relacionadas de acordo com os seus sentidos, e em padrões de versos, obtidos a partir da análise de poesia escrita por humanos, gerando a partir daí poemas em língua portuguesa sobre as mais diversas temáticas», pode ler-se numa nota de imprensa divulgada ontem pela UC.

Segundo as palavras do autor, que é também docente da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCTUC), um dos pontos-chave deste poeta sui generis é, «a sua flexibilidade na criação de poesia. Tem a capacidade de compor com as mais diferentes configurações. Posso, p. ex., definir um conjunto de palavras que defina o domínio do poema, indicar o nível de surpresa, escolher a forma poética – sonetos, quadras, etc. – e decidir o sentimento (negativo ou positivo) transmitido. No final da obra, o sistema ainda pode explicar a sua escolha de palavras».

Esta investigação enquadra-se na área do conhecimento conhecida por Geração Automática de Poesia que surgiu em 2000, mas que em Portugal é pouco explorada. Mas, num país de poetas, qual é a utilidade deste sistema poético de inteligência artificial? «É uma nova forma de pensar a poesia e pode contribuir para estimular os poetas humanos, desafiando ainda mais a sua criatividade. Pode funcionar, quem sabe, como uma fonte de inspiração», responde Hugo Oliveira.

Que musa esta, essência de silício, que irrompe dos átomos para inspirar humanos!

Fica a saber: se lhe pedirem um poema, e não estiver inspirado, pode sempre ir beber à fonte do “PoeTryMe”, que, como outras fontes, também nasce em Coimbra.

 * consultor científico no projecto Ciência na Imprensa Regional / Investigador na Universidade de Coimbra

Antonio-Piedade-faixa

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here