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FERNANDO CALADO RODRIGUES *

O Papa está a fazer uma revolução coperniciana ao fazer das periferias o centro do seu discurso. Aproveita todas as oportunidades, até as mais improváveis, para chamar a atenção para os pobres e os excluídos da sociedade. Nem mesmo as romanas cerimónias da Semana Santa, alérgicas à mudança, resistiram ao efeito renovador de Francisco, que introduziu práticas carregadas desde o “fim do mundo”.

Era normal para o cardeal Bergoglio, em Buenos Aires, fazer a celebração da missa da tarde de Quinta-feira Santa – em que se recorda a Última Ceia de Jesus, na qual este lavou os pés aos Apóstolos e instituiu a Eucaristia – numa prisão, num hospital ou num hospício. Assim, chamava a atenção para os que muitas vezes a sociedade quer esquecer logo no início dos três dias mais importantes para Igreja, aqueles em que se celebra a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus.

À semelhança do que fazia na sua diocese, no ano passado foi celebrar essa missa a uma prisão, chegando mesmo a lavar os pés a raparigas e, até, a uma muçulmana. Este ano, embora numa igreja, realizou essa cerimónia rodeado por pessoas portadoras de deficiência. Foram escolhidas 12 de entre elas, que professam diferentes credos, de diversas etnias e de idades variadas, a quem o Papa lavou os pés.

São gestos simbólicos, que ajudam a despertar consciências, mas que nenhum efeito terão se não levarem os cristãos a empenharem-se na denúncia e no combate àquelas que são as causas da pobreza e marginalização. Essas «não são fruto do acaso nem uma inevitabilidade», denunciou um manifesto divulgado recentemente, mas «decorrem do modo como a sociedade e a economia estão organizadas».

Esse texto é o resultado de uma reflexão promovida pela Rede Europeia Anti-Pobreza, com a participação de várias personalidades e instituições nacionais ligadas a esta problemática. Para os seus signatários, a pobreza configura uma violação dos Direitos Humanos e é urgente a adoção de medidas políticas e económicas de acordo com uma “Estratégia de Erradicação da Pobreza e a Exclusão Social”.
Estas e outras iniciativas são uma oportunidade para os cristãos porem em prática o que, simbolicamente, o Papa faz no Lava-pés e noutros gestos.

(Texto publicado no Correio da Manhã, em 18/04/2014)
* padre da diocese de Bragança-Miranda. Autor do blogue “Igreja e mundo”.

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