Outono

 

VASCO FRANCISCO *

 

Início de tarde. Não sei se a vontade de escrever parte de nós mesmos ou se é simples instinto. Instinto este que me trouxe até à beira do Mondego onde desenho estas palavras. Verdadeiro dia de Outono. As folhas esvoaçam, o jardim e as árvores vão-se despindo ao ritmo de um vento quente e sereno. Para além de um jardineiro que vai ajeitando um canteiro aqui ao lado, toda esta natureza parece ser toda minha. Nestas frases que se vão desenrolando no papel conjugo literatura e ciência. Uma junção que torna estas palavras mais naturais e ao mesmo tempo poéticas. Não terei sido o primeiro a escrever neste banco de jardim, ainda mais em Coimbra, cidade dos estudantes, que por si são poetas e trovadores mesmo sem o saberem. Assim me resguardo aqui junto deste verde que me alenta a esperança, neste momento que o instinto provocou e que agradeço. A fauna e a flora são a minha paisagem que se estende além dos elementos citadinos que vou observando. Gaivotas no Mondego? O espanto já não é recente, nem nunca deixará de espantar. Dizem que vieram estudar para Coimbra e que por esta cidade se apaixonaram.

Eis que sentado neste banco de jardim me aparece uma cigana que quer ler a sina. Recuso a léria tão promovida e passados alguns minutos a mulher desiste da ideia. A minha sina é viver e mais do que isso o destino dirá. De capa sobre os ombros, um estudante olha as águas que lavam os pés desta cidade. Quem sabe se lhe transmitem um poema, aquele mesmo que eu aprendi a ler nas suas águas cristalinas.

O Mondego corre calmo e majestoso, caudal de histórias e mitos que se vão contando pelas margens fora. Leito de mistérios, de amores e traições. A calmaria destas águas embala o momento que me prende o olhar na paisagem e nestas águas tão genuínas e tão portuguesas. Aqui sinto que a cidade também tem silêncio, que aqui a natureza também tem encanto.

Parece que não tardará muito tempo para começar a chover. Abandono o jardim e assim fica deserto. Mas sempre com vida, a que a natureza transmite e robustece.

 

Coimbra, 31 de Outubro de 2014

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