Covões

 

ANTÓNIO B. MARTINS (*)

A “exterminação” – lenta, agonizante, compassada, impensada, desorganizada, atabalhoada, desajustada, infantil, sem planificação, irreflectida, mórbida e sem ter sido perspectivada – do Hospital dos Covões [na foto] constitui como afirmava, em reunião de amigos, um médico dessa Unidade modelar, do meu meio de amizades, um “crime de lesa-Pátria”.

Antes de mais uma simples resenha histórica para nos situarmos no tempo. “O conjunto de edifícios que, ainda hoje, constituem o hospital dos Covões foram construídos durante as primeiras décadas do séc. XX, entre 1918 e 1930, com a intenção de criar uma escola-asilo destinada a recolher e educar os órfãos dos soldados mortos na I Grande Guerra. Como nunca chegaram a ser utilizados para este fim, foram reconvertidos num sanatório antituberculoso para indivíduos do sexo masculino, dando corpo às preocupações assistenciais da época. A 5 de Fevereiro de 1931, é publicado o Decreto n.º 19.310 no qual a Assistência da Colónia Portuguesa do Brasil faz doação do seu património ao Governo português, convertendo-o num hospital-sanatório, com capacidade para 400 doentes, e que representava o que de mais moderno e revolucionário se fizera até então, pela sua concepção, beleza e conforto, servindo de modelo a outras instituições que foram surgindo no país. Anos mais tarde, novas circunstâncias ditaram o fim do hospital-sanatório com a redução significativa do número de tuberculosos, sendo, então, criado o Hospital Geral como Hospital Central, pelo Decreto-Lei n.º 308/70, de 2 de Julho”.

Quando, pela mão desse valoroso Cidadão, desse inteligente Homem, desse reconhecido Cirurgião e desse português de estirpe que foi o Prof. Doutor Bissaya Barreto foi criado o Hospital dos Covões, como Hospital Geral da Colónia Portuguesa do Brasil, estava subjacente uma filosofia de grande visão.

Bissaya, porque catedrático de Medicina, percebia bem e entendia melhor a mentalidade dos que, por vocação, uns e, outros, por vaidade, seguiam a carreira académica.

Ele dava conta que – porque tinha passado, primeiro, pelos bancos da Faculdade, conhecendo as formas de estar e de ser de muitos dos seus companheiros e, depois, a pulso, alcançado a fasquia de Prof. Doutor – quantos apostavam, apenas e só, na carreira médica tinham dificuldades em vingar e, também, em se afirmarem como grandes médicos.

A sombra e algum “afastamento de estimação” dos que eram catedráticos, perante os colegas médicos, pressentia-se, vivia-se, respirava-se e jogava a desfavor da prestação de cuidados médicos.

Bissaya fez tudo para mudar o curso desse caminho que – sabia – iria dividir a comunidade médica coimbrã, abrir fracturas sem precedentes na classe, estigmatizar uma boa parte dos seus protagonistas, eternizar mentalidades sufocantes, beliscar formas de agir, provocar desentendimentos, motivar clivagens profissionais, quebrar elos de colaboração, mastigar intenções, derrotar ideias, frigorificar opiniões, emparedar conceitos e prejudicar a comunidade dos doentes, hoje, nas novas versões, os “clientes do SNS”.

Se bem o pensou, melhor o fez, demonstrando aos mandantes da altura, aos descrentes, aos regedores do sistema de saúde vigente na época, aos seus detractores, aos catedráticos de e da Medicina… e a tantas Entidades e Responsáveis do tempo em que foi médico de Salazar, filantropo, visionário, fazedor de estruturas e de Instituições que, ainda hoje, servem, com denodo e grande valia, as gentes da Região Centro… que tinha visão e sabedoria.

Depois das instalações da Quinta dos Vales, a montante de S. Martinho e da Póvoa de Santa Clara, ter servido de Sanatório, Bissaya aproveita os edifícios aí implantados e corre a defender a abertura de um Hospital, o dos Covões, onde pudessem caber os médicos que desistiram da carreira académica e queriam dedicar-se à prestação dos seus conhecimentos da Medicina de que, aliás, o Prof. Doutor B. Barreto fora seu docente e mestre.

Assim, e numa jogada de inteligência sublime, coloca médicos nesse Hospital, o dos Covões, longe de algumas “afrontas” dos catedráticos, para que eles pudessem, também, brilhar e dignificar a classe e as práticas da saúde. Serviram o Hospital dos Covões médicos de categoria, de estudo, de profundidade, de empenho, de sacrifícios, de pesquisa e de grande dedicação à causa.

Provou-se, por essa deliberação magnânima de Bissaya, que ele estava certo, porque, com o passar dos tempos, o Hospital dos Covões passou a ser de referência no panorama nacional da Medicina, onde pontificava a ordem, prevalecia o cumprimento do dever, se praticavam boas práticas médicas e se faziam “milagres”, em razão das instalações não serem modernas. Bissaya introduziu um sistema funcional, geracional, competente, de colaboração entre as partes envolvidas – médicos, enfermeiros, pessoal administrativo, auxiliar e outros – e sem “atilhos” para se fazer e para se projectar, com rigor, novos métodos que pudessem salvar vidas.

Agora, com o decreto que criou o “elefante” do CHUC – Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra não se está a dar conta do choque, da turbulência e das provocações, no mau sentido, que essa fusão, sem estudo, sem método, sem planificação e sem mestria… está a ter na orgânica de toda essa gigantesca estrutura.

As transições, principalmente, as de pessoal médico e de enfermagem, que estão a ser operadas dos Covões para unidades do “mastodonte” CHUC, fazem-se “sem rei nem roque”… num desfazamento de “cultura” assistencial e de saúde, sem memória e a elevado preço.

A “escola” dos Covões nada tem a ver com a, por exemplo, do Edifício Central dos CHUC, o antigo HUC, o que, e devido à forma atabalhoada como tem vindo a ser executada a integração, está a provocar desentendimentos, em surdina; a promover choques de gerações; a esmagar os que entram para novas enfermarias; a condicionar acções; a brutalizar conceitos de trabalho; a fragilizar quem chega; a criar divisões; a enterrar métodos dos que se apresentam em novos serviços; a condicionar ideias; a apertar funcionalidades; a incentivar clivagens; a interromper carreiras de sucesso; e a eleger desleixos.

Estive, recentemente, internado no Edifício Central dos HUC, tendo-me apercebido dessas divisões, porque ninguém, dos responsáveis por esta mudança, desde o Ministério da Saúde, à Direcção Regional, às Administrações, aos Chefes de Serviços, aos Responsáveis por enfermarias e outras Unidades de grande relevo, como as Urgências e o Bloco Operatório, teve a amabilidade de pensar nessa significante quão brutal alteração, nem de traçar um programa de reintegração.

Até no comando de um ou de outro sector, como me fizeram questão de confidenciar, se torna difícil agir, porque, enquanto nos Covões a ordem provinha de qualquer chefe e era acatada, na Unidade Central dos HUC, onde ponderam os ”catedráticos”…, é difícil saber quem manda, além de que alguns dos Srs. Profs. sofrem, ainda, de um diagnóstico de “doutorice”, onde se continua a conservar um corporativismo que estratifica a sociedade e a desgasta.

Se não se inverter esta forma de integração de pessoas e de métodos de serviços, dos Covões para a malha alargada das estruturas do CHUC, as consequências podem ser desastrosas e maléficas para a prestação de Cuidados Médicos, em Coimbra e em toda a Região Centro do País.

Na história da Saúde, em Portugal, vai ficar, com toda a certeza, esta destruição de um método que Bissaya criou para que, cada um no seu “fórum”, pudesse trabalhar sem grilhetas, alimentasse os seus sonhos, exercesse a sua Medicina com criatividade e estivesse afastado de gente que, por opção, escolheu, um dia, enveredar pela carreira académica. Todos são precisos, isso não se pode escamotear.

Fechar os Covões é, devemos repeti-lo até à exaustão – no dizer afirmativo de um amigo médico que ali presta serviço, vai para mais de 35 anos e que sente a “casa” como sua – “matar um pouco de muitos que nele exerceram, com dedicação e estima a sua actividade, além de enterrar os anseios e as esperanças de milhares de doentes da Região Centro do país”.

 

(*) colaborador permanente do COIMBRA JORNAL

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