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Quinta-feira, 30 Junho, 2022
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Covões para CHUC: transições “sem rei nem roque”

Covões

 

ANTÓNIO B. MARTINS (*)

A “exterminação” – lenta, agonizante, compassada, impensada, desorganizada, atabalhoada, desajustada, infantil, sem planificação, irreflectida, mórbida e sem ter sido perspectivada – do Hospital dos Covões [na foto] constitui como afirmava, em reunião de amigos, um médico dessa Unidade modelar, do meu meio de amizades, um “crime de lesa-Pátria”.

Antes de mais uma simples resenha histórica para nos situarmos no tempo. “O conjunto de edifícios que, ainda hoje, constituem o hospital dos Covões foram construídos durante as primeiras décadas do séc. XX, entre 1918 e 1930, com a intenção de criar uma escola-asilo destinada a recolher e educar os órfãos dos soldados mortos na I Grande Guerra. Como nunca chegaram a ser utilizados para este fim, foram reconvertidos num sanatório antituberculoso para indivíduos do sexo masculino, dando corpo às preocupações assistenciais da época. A 5 de Fevereiro de 1931, é publicado o Decreto n.º 19.310 no qual a Assistência da Colónia Portuguesa do Brasil faz doação do seu património ao Governo português, convertendo-o num hospital-sanatório, com capacidade para 400 doentes, e que representava o que de mais moderno e revolucionário se fizera até então, pela sua concepção, beleza e conforto, servindo de modelo a outras instituições que foram surgindo no país. Anos mais tarde, novas circunstâncias ditaram o fim do hospital-sanatório com a redução significativa do número de tuberculosos, sendo, então, criado o Hospital Geral como Hospital Central, pelo Decreto-Lei n.º 308/70, de 2 de Julho”.

Quando, pela mão desse valoroso Cidadão, desse inteligente Homem, desse reconhecido Cirurgião e desse português de estirpe que foi o Prof. Doutor Bissaya Barreto foi criado o Hospital dos Covões, como Hospital Geral da Colónia Portuguesa do Brasil, estava subjacente uma filosofia de grande visão.

Bissaya, porque catedrático de Medicina, percebia bem e entendia melhor a mentalidade dos que, por vocação, uns e, outros, por vaidade, seguiam a carreira académica.

Ele dava conta que – porque tinha passado, primeiro, pelos bancos da Faculdade, conhecendo as formas de estar e de ser de muitos dos seus companheiros e, depois, a pulso, alcançado a fasquia de Prof. Doutor – quantos apostavam, apenas e só, na carreira médica tinham dificuldades em vingar e, também, em se afirmarem como grandes médicos.

A sombra e algum “afastamento de estimação” dos que eram catedráticos, perante os colegas médicos, pressentia-se, vivia-se, respirava-se e jogava a desfavor da prestação de cuidados médicos.

Bissaya fez tudo para mudar o curso desse caminho que – sabia – iria dividir a comunidade médica coimbrã, abrir fracturas sem precedentes na classe, estigmatizar uma boa parte dos seus protagonistas, eternizar mentalidades sufocantes, beliscar formas de agir, provocar desentendimentos, motivar clivagens profissionais, quebrar elos de colaboração, mastigar intenções, derrotar ideias, frigorificar opiniões, emparedar conceitos e prejudicar a comunidade dos doentes, hoje, nas novas versões, os “clientes do SNS”.

Se bem o pensou, melhor o fez, demonstrando aos mandantes da altura, aos descrentes, aos regedores do sistema de saúde vigente na época, aos seus detractores, aos catedráticos de e da Medicina… e a tantas Entidades e Responsáveis do tempo em que foi médico de Salazar, filantropo, visionário, fazedor de estruturas e de Instituições que, ainda hoje, servem, com denodo e grande valia, as gentes da Região Centro… que tinha visão e sabedoria.

Depois das instalações da Quinta dos Vales, a montante de S. Martinho e da Póvoa de Santa Clara, ter servido de Sanatório, Bissaya aproveita os edifícios aí implantados e corre a defender a abertura de um Hospital, o dos Covões, onde pudessem caber os médicos que desistiram da carreira académica e queriam dedicar-se à prestação dos seus conhecimentos da Medicina de que, aliás, o Prof. Doutor B. Barreto fora seu docente e mestre.

Assim, e numa jogada de inteligência sublime, coloca médicos nesse Hospital, o dos Covões, longe de algumas “afrontas” dos catedráticos, para que eles pudessem, também, brilhar e dignificar a classe e as práticas da saúde. Serviram o Hospital dos Covões médicos de categoria, de estudo, de profundidade, de empenho, de sacrifícios, de pesquisa e de grande dedicação à causa.

Provou-se, por essa deliberação magnânima de Bissaya, que ele estava certo, porque, com o passar dos tempos, o Hospital dos Covões passou a ser de referência no panorama nacional da Medicina, onde pontificava a ordem, prevalecia o cumprimento do dever, se praticavam boas práticas médicas e se faziam “milagres”, em razão das instalações não serem modernas. Bissaya introduziu um sistema funcional, geracional, competente, de colaboração entre as partes envolvidas – médicos, enfermeiros, pessoal administrativo, auxiliar e outros – e sem “atilhos” para se fazer e para se projectar, com rigor, novos métodos que pudessem salvar vidas.

Agora, com o decreto que criou o “elefante” do CHUC – Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra não se está a dar conta do choque, da turbulência e das provocações, no mau sentido, que essa fusão, sem estudo, sem método, sem planificação e sem mestria… está a ter na orgânica de toda essa gigantesca estrutura.

As transições, principalmente, as de pessoal médico e de enfermagem, que estão a ser operadas dos Covões para unidades do “mastodonte” CHUC, fazem-se “sem rei nem roque”… num desfazamento de “cultura” assistencial e de saúde, sem memória e a elevado preço.

A “escola” dos Covões nada tem a ver com a, por exemplo, do Edifício Central dos CHUC, o antigo HUC, o que, e devido à forma atabalhoada como tem vindo a ser executada a integração, está a provocar desentendimentos, em surdina; a promover choques de gerações; a esmagar os que entram para novas enfermarias; a condicionar acções; a brutalizar conceitos de trabalho; a fragilizar quem chega; a criar divisões; a enterrar métodos dos que se apresentam em novos serviços; a condicionar ideias; a apertar funcionalidades; a incentivar clivagens; a interromper carreiras de sucesso; e a eleger desleixos.

Estive, recentemente, internado no Edifício Central dos HUC, tendo-me apercebido dessas divisões, porque ninguém, dos responsáveis por esta mudança, desde o Ministério da Saúde, à Direcção Regional, às Administrações, aos Chefes de Serviços, aos Responsáveis por enfermarias e outras Unidades de grande relevo, como as Urgências e o Bloco Operatório, teve a amabilidade de pensar nessa significante quão brutal alteração, nem de traçar um programa de reintegração.

Até no comando de um ou de outro sector, como me fizeram questão de confidenciar, se torna difícil agir, porque, enquanto nos Covões a ordem provinha de qualquer chefe e era acatada, na Unidade Central dos HUC, onde ponderam os ”catedráticos”…, é difícil saber quem manda, além de que alguns dos Srs. Profs. sofrem, ainda, de um diagnóstico de “doutorice”, onde se continua a conservar um corporativismo que estratifica a sociedade e a desgasta.

Se não se inverter esta forma de integração de pessoas e de métodos de serviços, dos Covões para a malha alargada das estruturas do CHUC, as consequências podem ser desastrosas e maléficas para a prestação de Cuidados Médicos, em Coimbra e em toda a Região Centro do País.

Na história da Saúde, em Portugal, vai ficar, com toda a certeza, esta destruição de um método que Bissaya criou para que, cada um no seu “fórum”, pudesse trabalhar sem grilhetas, alimentasse os seus sonhos, exercesse a sua Medicina com criatividade e estivesse afastado de gente que, por opção, escolheu, um dia, enveredar pela carreira académica. Todos são precisos, isso não se pode escamotear.

Fechar os Covões é, devemos repeti-lo até à exaustão – no dizer afirmativo de um amigo médico que ali presta serviço, vai para mais de 35 anos e que sente a “casa” como sua – “matar um pouco de muitos que nele exerceram, com dedicação e estima a sua actividade, além de enterrar os anseios e as esperanças de milhares de doentes da Região Centro do país”.

 

(*) colaborador permanente do COIMBRA JORNAL

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Páginas: 240
1.ª edição: Dezembro de 2014
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O Sr. Sócrates: Vizinho e Gestor da Quintinha

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ANTÓNIO B. MARTINS *

Conheci, vai para alguns anos, um Sr. Sócrates que era vizinho de uns tios meus, de e em Lisboa.

Diziam as “más línguas” que tinha conversa para dar e vender. E, no perímetro habitacional, de onde tinha casa abastada e vivia sem temor pelo futuro, apresentava-se de porte elegante e trajava só de etiqueta(s)…

Um vizinho, o Zorrinho, acolitado pelo Seguro, um do 1.º esquerdo e o outro do 2.º direito, não alinhavam com a cara do Sócrates.

Mas, um dia, sem perceberem como era possível, acordaram com uma bombástica notícia: o vizinho Sócrates fora nomeado para lugar grande… gestor/administrador geral de uma quintinha.

Passados dias… passava pela malta e já não era o mesmo – afirmava a vizinhança. Passou a uma pose de “pavão”, de altivez… e deixou de saudar muitos dos que o conheciam, dali do Bairro.

Aparecia muitas vezes nas televisões a falar da tal quintinha, dos que nela trabalhavam, a prometer uma gestão mais rigorosa, a discursar com a eloquência de um orador de excelência.

Tinha “letra” e palavras para tudo e para todos… era o que, na antiga Grécia, se poderia apelidar de um Tribuno. Mas, os vizinhos Zorrinho, Seguro e outros não o tinham nessa conta, antes o carimbaram com um cognome: “vendedor da banha da cobra”. Outros, mais letrados e mais fadados a benesses da tal quintinha, como o Silva Pereira, o Alberto Martins e demais colaboradores, queixavam-se do azedume dos primeiros. Uma ou outra vez, em “plenários” do bairro, trocavam truculentas expressões…

Um dia, para espanto de uns e de outros, em zumbido popular, a notícia estala, como as castanhas em assadura branda, dando conta de que o Sr. Sócrates estava metido numa barafunda relacionada com um terreno da quintinha, o qual – dizia-se – tinha sido cedido para nele se fazer um enorme armazém, com tudo e de tudo…

No barulho ouvia-se falar de ingleses e de familiares do Sr. Sócrates, numa molhada de interesses e de bolsos cheios e, também, de corrupção e de “baralhos por baixo das mesas dos poderes”, centrados no eixo da quintinha.

Acresce que a quintinha começou a apresentar défice de gestão, com cofres vazios, dificultando a manobra corrente e, ainda, o pagamento de salários e de outras situações.

Vai de, depois de auscultação à massa trabalhadora e outras, apear o Sr. Sócrates e colocar no seu lugar uma outra “passada” de forma de gestão. Outro estilo e outras cores… com teimosia à mistura…

O Sr. Sócrates deixou de ser visto no bairro para o começarem a topar em Paris, capital francesa para onde – informou as suas amizades – foi fazer um mestrado.

Voltavam os vizinhos e alguns trabalhadores da quintinha, que nunca o estimaram, a cantar de galo e a explicitar bem alto: “ foi fazer a travessia do deserto para, não tarda, aparecer recauchutado… a preparar terreno”.

Lá regressou, passado o tempo dessa aprendizagem parisiense, a Portugal e, sem se saber como nem porquê, ter um lugar de destaque no canal 1 da televisão pública, paga por todos os homens da tal quintinha, ao domingo, a uma hora nobre.

Ao invés dos outros comentadores, de televisões privadas, o Sr. Sócrates fez do seu espaço televisivo na RTP1, uma “coisa” sua, mas muito sua. Não comentava… defendia-se do passado e atacava e contra-atacava quem, no pretérito, o tinha afrontado… e deixava recados, dificultando a vida da jornalista que tinha a responsabilidade do programa porque a interrompia bastas vezes e, em tom, severo quase a “abafava”…

Agora, o Sr. Sócrates… que teve esse percurso todo, sem nunca se mostrar humilde e, principalmente, simples, porque do Povo, foi detido para se averiguar se tem responsabilidades de fuga ao fisco e branqueamento de capitais.

Que a justiça cumpra a sua missão, mas sem as pressões que, as mais das vezes, os poderes políticos, económicos, sociais e outros atiram para a engrenagem dos Tribunais e dos seus actores. Dessa forma, a opinião pública da quintinha vai acreditar que a justiça é igual para todos e que se sustenta num princípio basilar: “A JUSTIÇA É UM DOS PRINCIPAIS PILARES DE UMA DEMOCRACIA CREDÍVEL E QUE RESPIRA SAÚDE…”.

Como nota final, e porque vem a propósito sobre todo este episódio da vizinhança dos meus tios de e em Lisboa, fica uma célebre frase do Filósofo e Pensador grego Sócrates: “É COSTUME DE UM TOLO, QUANDO ERRA, QUEIXAR-SE DO OUTRO. É COSTUME DO SÁBIO QUEIXAR-SE DE SI MESMO.”

[foto: Expresso Diário]

Instinto (Outono)

Outono

 

VASCO FRANCISCO *

 

Início de tarde. Não sei se a vontade de escrever parte de nós mesmos ou se é simples instinto. Instinto este que me trouxe até à beira do Mondego onde desenho estas palavras. Verdadeiro dia de Outono. As folhas esvoaçam, o jardim e as árvores vão-se despindo ao ritmo de um vento quente e sereno. Para além de um jardineiro que vai ajeitando um canteiro aqui ao lado, toda esta natureza parece ser toda minha. Nestas frases que se vão desenrolando no papel conjugo literatura e ciência. Uma junção que torna estas palavras mais naturais e ao mesmo tempo poéticas. Não terei sido o primeiro a escrever neste banco de jardim, ainda mais em Coimbra, cidade dos estudantes, que por si são poetas e trovadores mesmo sem o saberem. Assim me resguardo aqui junto deste verde que me alenta a esperança, neste momento que o instinto provocou e que agradeço. A fauna e a flora são a minha paisagem que se estende além dos elementos citadinos que vou observando. Gaivotas no Mondego? O espanto já não é recente, nem nunca deixará de espantar. Dizem que vieram estudar para Coimbra e que por esta cidade se apaixonaram.

Eis que sentado neste banco de jardim me aparece uma cigana que quer ler a sina. Recuso a léria tão promovida e passados alguns minutos a mulher desiste da ideia. A minha sina é viver e mais do que isso o destino dirá. De capa sobre os ombros, um estudante olha as águas que lavam os pés desta cidade. Quem sabe se lhe transmitem um poema, aquele mesmo que eu aprendi a ler nas suas águas cristalinas.

O Mondego corre calmo e majestoso, caudal de histórias e mitos que se vão contando pelas margens fora. Leito de mistérios, de amores e traições. A calmaria destas águas embala o momento que me prende o olhar na paisagem e nestas águas tão genuínas e tão portuguesas. Aqui sinto que a cidade também tem silêncio, que aqui a natureza também tem encanto.

Parece que não tardará muito tempo para começar a chover. Abandono o jardim e assim fica deserto. Mas sempre com vida, a que a natureza transmite e robustece.

 

Coimbra, 31 de Outubro de 2014

Passeio matinal por Coimbra

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VASCO FRANCISCO *

 

A cidade vai sobressaindo de forma serena de uma fina neblina que se desvanece lentamente. O silêncio toma conta de ruas ainda desertas, mas que vão retomando o ruído citadino. A cidade desperta com o falar das gentes que vão chegando dos arrabaldes. São as primeiras pessoas a calcar os passeios pela manhã.

Os “bons dias” entre elas e o quotidiano dos arredores soam nas ruas mais fechadas onde se abrem as primeiras janelas. Uma criança enlaça os pequenos dedos na mão da mãe. Veio hoje à cidade. Um mundo diferente daquele a que está habituada. Um trólei passa na rua e com um ar intrigado e de ligeira sabedoria o miúdo sai-se com uma pergunta que logo fez soar risos aos que o ouviram: “Ó mãe que casa é aquela com dois paus às costas?”.

Toda esta gente que madruga para vir para a cidade traz um objetivo comum, ganhar a vida para viver. Estudantes, empregadas, funcionárias, enfim um conjunto de ofícios que se juntam ao dia-a-dia de uma cidade. Por entre esta gente, chego eu. Rumo ao que me traz, mas antes de começar mais um dia, descontraio num passeio matinal que agora começa.

O dia promete ser soalheiro. O burburinho da cidade começa a sentir-se. A natureza convida a vislumbrar a Lusa Atenas de um sítio único, tão belo e tão natural. Do Penedo da Saudade, dirijo o meu olhar a uma cidade que daqui parece maior e mais bela. Não admira que tenham escolhido este recanto para o “retiro dos poetas”. Qualquer ser que por aqui passe leva um verso na alma. Uma vista única sobre um pedaço de uma cidade que acaba de acordar. As serras que se avistam deste promontório pedregoso, transmitem um ar puro que aqui se detém e ao mesmo tempo deslumbram a cidade com o seu verde constante que transmite esperança a uma cidade repleta de nostalgia. Num plano mais perto, vejo uma urbanização moderna onde o traço da genuinidade ainda se mantém. O Mondego corre lentamente com as suas águas embaladas na saudade e nas lágrimas de um amor tão afamado.

Julgo que seja um dos locais mais bonitos desta cidade. Fazendo-se cenário da tristeza de um grande amor, este miradouro outrora designado por Pedra dos Ventos onde D. Pedro vinha chorar a perda de Inês, um lugar onde Coimbra se torna a poetisa deste recanto. Nas pedras está gravada a saudade e a homenagem por parte de muitos estudantes à cidade que os acolheu e que os ensinou.

É momento de seguir este roteiro matinal. Deixo o Penedo onde as pedras parecem chorar, pelo orvalho que ainda escorre, lavam-se os versos de saudade, mas os versos ficam e a minha alma vai, leva consigo a paixão de uma cidade.

Os passos ecoam nas ruas e na companhia deles entro no Botânico, onde a natureza se apresenta mais requintada. A Ciência está presente neste jardim onde todas as espécies são atracção. Sinto e deslumbro, mas nada mais do que isso. Percorro o jardim de um lado ao outro, a fauna e a flora convidam-me a relaxar, assim o faço sem paragens pois dizem-me que vai fechar. Ao sair, depois da fachada onde Brotero dá as despedidas e as boas vindas, levo a paisagem do pulmão da cidade. A natureza sente-se aqui como algo diferente e de tão natural numa cidade.

O passeio parece estar a acabar. Termino em descanso, sentado num banco de pedra que um canteiro trabalhou para que alguém se sentasse. Assisto ao corrupio matinal da Baixa da cidade. A zona histórica prende-me ao fascínio que tenho por esta cidade. E assim junto-me ao cenário da Praça 8 de Maio, onde a igreja de Santa Cruz ocupa o plano principal. Sei que tenho de ir, mas fico mais um pouco para entender a beleza destas pedras que me transportam ao passado.

Recasados sem resposta [Fernando Calado Rodrigues]

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FERNANDO CALADO RODRIGUES *

 

O Vaticano divulgou o “Instrumentum Laboris”, que acolhe as respostas de diversos organismos eclesiais ao inquérito sobre a problemática da família e propõe linhas de reflexão aos participantes no Sínodo dos Bispos Extraordinário.
Para além de propor uma análise bastante aprofundada da “situação familiar contemporânea, dos seus desafios e das reflexões que suscita”, transparece no documento um esforço da Igreja em olhar de frente para o que define como “situações matrimoniais difíceis”. Estas são os casos das uniões de facto, dos divorciados e recasados, ou das uniões de pessoas do mesmo sexo. As pessoas nessas situações vivem “histórias de grande sofrimento, assim como testemunhos de amor sincero”. São pessoas que sofrem quando lhes é negado o acesso aos sacramentos ou o baptismo dos filhos. São situações que exigem da Igreja uma resposta, resposta essa que permita que estas “pessoas curem as feridas, sarem e retomem o caminho juntamente com toda a comunidade eclesial”.

O “Instrumentum Laboris” propõe alguns caminhos e resolve algumas questões, mas deixa outras em aberto para a reflexão dos bispos. Por exemplo: diz claramente que os sacramentos não podem ser negados às pessoas que vivem separadas. Também não pode ser negado o baptismo ao filho de uma mãe solteira ou de uma pessoa que vive numa união com outra do mesmo sexo. Neste último caso, diz explicitamente: “deve ser acolhido com as mesmas atenção, ternura e solicitude que recebem os outros filhos”.

Em relação aos divorciados a viverem uma nova união, dá-se conta do pedido vindo sobretudo da Europa e da América para que possam “receber os sacramentos”. Ou, então, que à semelhança do que acontece em determinadas Igrejas ortodoxas, se abra “o caminho para um segundo ou terceiro matrimónio, com carácter penitencial”. Também se refere que alguns pedem que se esclareça se “a questão é de índole doutrinal ou apenas disciplinar”.

Terá de se aguardar pela realização do Sínodo dos Bispos, em Outubro, para, eventualmente, se ficar com uma resposta clara para a situação dos divorciados recasados. A Igreja precisa de ter para essa e para outras questões uma forma de actuação adequada que possa ser compreendida por todos.

(Texto publicado no “Correio da Manhã” de 4/7/2014)
* padre da diocese de Bragança-Miranda. Autor do blogue “Igreja e mundo”.

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Convívio da ex-Escola do Magistério Primário: as fotos

A Escola do Magistério Primário de Coimbra fechou as portas em Julho de 1989, há precisamente 25 anos, depois de muitas décadas a formar professores do ensino primário.

Hoje são milhares os professores formados naquela escola que continuam a exercer a sua missão, ajudando a abrir as “portas do Mundo” às crianças portuguesas.

Algumas dezenas deles reuniram-se na sexta-feira em Coimbra, num ambiente só possível porque permanece viva a recordação de um estabelecimento de ensino que, mais do que uma Escola, era uma Família. E é sempre agradável conviver num ambiente familiar.

(NOTA: clique nas fotos UMA vez, depois OUTRA vez e… copie. É grátis!)

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Por um referendo sobre a TAP

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ANTÓNIO B. MARTINS *

 

 TAP:  de braços caídos… a pensar nos interesses / Desafio a um referendo

 

Os transportes aéreos portugueses – AIR PORTUGAL/TAP – com mais de 60 anos de vida útil ao serviço do País, estão na mira de “jogadores” financeiros e sob os seus olhares de rapina.

Criados em tempos de fracos recursos económicos, com a determinação de homens que, apesar do mais e de tudo, sabiam gerir, a TAP tem sido uma marca de excelência do “mundo dos ares” e uma imagem de referência mundial da aviação comercial dos nossos dias.

Sofreu vicissitudes, impostas por crises do petróleo e financeiras; por políticas isolacionistas; por deliberações mais ou menos levianas; por decisores impreparados para administrar escalas, voos, aviões, rotas e pessoal; por administradores incompetentes que “aterraram” na companhia por simpatias político-partidárias; por sindicalistas vesgos e determinados em fazer cumprir as directrizes de politiquices bafientas; por rupturas laborais nem sempre de interesse nacional; por birras marginais à empresa; por “merchandisings” partidários e por tantas outras maleitas que foram corroendo uma TAP que se tornou um vazadouro de incongruentes gestores.

A TAP “entalou-se” financeiramente, esfumou-se nas vertigens de projectos sem substracto, esboroou-se nas oficinas do Brasil, perdeu “penas” com a globalização, fatigou-se com as teimosas reivindicações operárias, ficou refém de políticos, emparedou-se com um “handling” pesado e estafado, desfalece nos corredores lisboetas de advogados de negociatas, começa a desviar-se da rota inicial e traça destinos para mãos de interesses que, como os submarinos e outros “trabalhinhos”, vão deixar luvas a quem pegar no caso da sua venda… a preço de saldo.

A TAP tem, hoje, frequências semanais para o Brasil que são cobiçadas pelos gigantes dos ares. A TAP chega a destinos africanos que os abutres de grupos internacionais de Aviação pretendem. A TAP capitalizou a sua força na segurança mas – segundo fontes – não soube, a tempo, fazer a respectiva renovação de quadros nesse sector e começa a apresentar uma ou outra debilidade. A TAP deixou sangrar-se dos melhores pilotos para companhias de prestígio do nosso tempo. Mas a TAP é, queiramos ou não, um símbolo histórico de Portugal. A TAP é a nossa única bandeira que, todos os dias, circula livremente por quase todo o Mundo, numa acção de marketing sem precedentes. A TAP é uma das nossas mais reconhecidas imagens. A TAP é Portugal e os Portugueses…

Quanto valerá a TAP? Quanto valerá o seu património, incluindo todas as suas rotas, algumas quase em plena exclusividade? Quanto valerá algum do seu melhor capital humano? Quanto valerá por todos os destinos que sulca em muitos dos aeroportos do Globo? Quanto valerá a sua imagem?  E quanto valerá a sua marca? E a sua bandeira?

Tudo… e tudo sem preço, porque é de todos nós, portugueses. Foi difícil erguê-la. Foi complicado afirmá-la. Foi obra de gerações… por nuvens nunca dantes voadas. E não se pode nem deve desbaratar tão importante acervo histórico, patrimonial, profissional, empresarial, humano, técnico, administrativo, estimativo, etc. .

A TAP não é um qualquer veículo da Presidência da República, um qualquer castanheiro, uma qualquer fábrica de velas, um matagal a incendiar, um qualquer objecto ou uma simples folha de papel que se deite a voar… não é “coisa” de miúdos como os que, ultimamente, sem rota ou destino, não nos têm sabido governar.

A TAP é nossa, mesmo nossa… da nossa gente, de todos e de qualquer um. É das crianças, é dos mais velhos, é dos iletrados aos mais intelectualizados, é dos mais citadinos aos mais rurais, é dos mestres aos discentes, é dos homens e das mulheres de Portugal. É, também, dos honrados, dos esquerdistas aos da direita, dos conservadores aos mais progressistas, dos de ontem e dos de hoje… e, ainda, dos de amanhã. É, afinal, da Portugalidade.

O Sr. Seguro veio a terreiro defender uma TAP da Lusofonia. Bem-haja pela sua ideia… mas veja se a coloca em prática, arrebatando os outros principais países da mesma língua: Brasil, Angola e Moçambique.

Tanto e tão pouco por um referendo e, desta feita, os Srs. da política, começando pelo deputados da AR, não apostam nessa forma de auscultação dos interesses pátrios.

Ou será que os tais escritórios de advocacia lisboeta, entregues aos grandes senhores dessa corporação poderosa e intocável, já “cozinharam” o negócio para, e mais tarde, repartirem dividendos que encham bolsos de gente que teima em fazer empobrecer o país e o seu Povo?

A TAP, pela sua carga histórica e por todos quantos a serviram ao longo de mais de 60 anos, a maioria dos quais com abnegação, sacrifícios, labor, classe, alto profissionalismo e muita sabedoria, não pode ser vendida por “trinta dinheiros” em hasta pública de “feira da ladra” internacional.

Basta de venderem o País a retalho, como quem troca ouro por anéis de pechisbeque.

Apenas a ideia de António José Seguro será bem aceite, figurando como uma possibilidade de salvarmos a nossa TAP; ou a outra que foi colocada, recentemente, a circular que dava conta de que o Paes do Amaral, em associação com um ex-sócio da Continental Airlines, estaria interessado em adquirir a TAP. Do mal o menos…

Permitam-me – dirijo-me a todos quantos me possam ler e com a anuência do Sr. Director Mário Martins – que se possa lançar neste espaço de debate de ideias um inquérito nacional, ao qual se associará um manifesto, para se saber se o nosso Povo está interessado num referendo sobre o destino a dar à TAP.

Vamos a isso?  Fica nas nossas mãos e na nossa consciência, a dos portugueses.

 

Diários de Coimbra e o amor pela Académica/oaf

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MÁRIO MARTINS *

 

Os dois jornais diários que se publicam em Coimbra fazem repetidas juras de amor eterno à Académica/oaf. Um amor falso.

No sábado (23 de Agosto), a Académica foi ao Funchal jogar com o Marítimo e os dois diários que se publicam em Coimbra ficaram em casa.
O mais antigo recorreu alegadamente aos serviços de um colaborador local, benévolo, Arnaldo Cafofo. Mas o texto sobre o jogo, na edição de domingo, é de uma enorme pobreza.
O diário mais novo publicou hoje (segunda-feira) o despacho de sábado da Agência Lusa, que mesmo assim ainda consegue ser mais pormenorizado, em alguns aspectos, do que o do colaborador do outro jornal.

Apenas uma questão…
A Académica perde o jogo na Madeira com dois golos sofridos no espaço de um minuto. O que é invulgar e, por isso, merece referência detalhada. Algum dos jornais explica como isso aconteceu? Nenhum.
Os adeptos da Académica, que não tiveram possibilidade de ver o jogo porque ele não foi televisionado, ficam na mesma depois de ler qualquer um dos jornais.
Como foi possível sofrer dois golos num minuto? Culpas da defesa? Do guarda-redes? Um momentâneo desnorte colectivo?
Ninguém sabe!

Esta atitude dos dois jornais diários que se publicam em Coimbra é tanto mais grave quanto a direcção da Académica/oaf lhes cede gratuitamente largos espaços publicitários no estádio, mais bilhetes para os jogos para oferecer (na compra de jornais) aos respectivos leitores, mais – creio – camarotes gratuitos no estádio.
Em troca, qual a atitude dos dois jornais? Não enviar nenhum jornalista ao Funchal, mesmo que a viagem de avião de ida-e-volta fique em menos de 120 euros.

Aliás, há precisamente dois anos nem a presença histórica da Académica na Liga Europa fez com que qualquer dos jornais enviasse um jornalista a Israel, quando a viagem custava cerca de 600 euros.
Ou seja: o amor de ambos os jornais pela Académica não vale sequer escassas centenas de euros.
Por outras palavras: não há amor nenhum.

Concluindo: razão tem o “Diário de Coimbra” ao escrever em título que “Académica merecia mais na Pérola do Atlântico”.
Merecia, na verdade, muito mais respeito dos jornais diários da cidade.

[Já agora: há dois anos, na estreia da Académica na Liga Europa, cada jornal enviou um jornalista à República Checa, para fazer a reportagem do jogo com o Viktoria Plzen. Mas nem isso terá sido uma prova de interesse pelo clube porque, ao que parece, a Académica ofereceu na ocasião quatro viagens, duas a cada jornal…]

Santa Apolónia [Salvador Massano Cardoso]

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SALVADOR MASSADO CARDOSO *

 

Rumei em direção a Braga para rever o que já tinha esquecido. Entrei na velha sé e fiquei novamente deslumbrado. Num dos altares laterais, três imagens, que descansavam ao pé de um Sagrado Coração de Jesus, chamaram-me a atenção, uma Rainha Santa, empunhando uma rosa, um São Brás e uma lindíssima Santa Apolónia.

As três estatuetas despertaram-me lembranças e algumas emoções. A primeira é a santa padroeira do pessoal feminino da casa, já lá vem de trás a eito. O São Brás comemora-se no dia em que a minha mãe fazia anos e era o seu santo preferido. Volta e não volta apelava ao santo, sobretudo quando adoecia da garganta e dos ouvidos, coisas frequentes da minha infância. Fiquei a conhecê-lo desde muito cedo. Além disso comecei a simpatizar com ele por causa do meu colega de carteira, que se chamava Brás, e sofria de escrófulas horríveis no pescoço que exalavam um pus cremoso e mal cheiroso. Ainda lhe cheguei a perguntar se a mãe não ia em peregrinação ao São Brás por causa disso. Mais tarde é que compreendi a razão, sofria de tuberculose ganglionar.

A terceira santa associei-a sempre a Lisboa, à estação dos caminhos de ferro. Adorava ir a Lisboa, ou melhor, o meu pai dizia que ia a Lisboa e eu dizia que ia a Santa Apolónia. Adorava fazer a longa viagem, de muitas horas, e desembarcar naquela gare cheia de movimento e de rituais enquadrados pela beleza arquitectónica que o fumo das locomotivas não conseguia esconder. Por outro lado, para mim era o fim da linha. E ficava satisfeito por saber que a linha terminava ali!

Esta estação sempre me seduziu, embora o comportamento dos taxistas me incomodasse. Invariavelmente o chauffeur perguntava, vêm da província? A forma como fazia a pergunta irritava-me solenemente. Até que uma das vezes, já era um terço espigadote, lhe retruquei, não, não vimos da província, vimos de Santa Comba Dão. Sabe onde fica? Quando lhe disse de onde vinha, o senhor encolheu-se, fez o sinal de descobrir a cabeça, que, entretanto, baixara, e disse, vêm da terra do Senhor Presidente do Conselho? Sim, desse provinciano. Provinciano não, o Senhor Presidente não é provinciano, disse com uma voz reverente o taxista. Então se ele não é provinciano, por que razão devemos ser nós? Uma canelada à maneira obrigou-me a interromper o diálogo. E o senhor chauffeur, com sotaque e tiques à lisboeta, a querer substituir as origens rurais, levou-nos num ápice ao destino.

Hoje, continuo a gostar da estação de Santa Apolónia, sobretudo quando regresso a casa, mas nem por isso deixo de pensar os muitos episódios que ali vi e vivi. Se soubesse na altura que a Santa Apolónia é a protetora dos dentistas, talvez não ficasse muito contente com o seu nome, já que fui um desgraçado com os dentes e com as torturas tipo inquisição a que fui sujeito. Um trauma que não esqueço.

Ao sair da Sé tropecei num mendigo ajoelhado, e com notórias dificuldades físicas, a tocar o Hino da Alegria com uma flauta. Apesar da simplicidade o quadro emocionou-me. Tocar o Hino da Alegria num país triste e ainda por cima por um ser humano que deve desconhecer o significado dessa palavra mais triste fiquei.

Nas lojas em redor a santaria já não é o que era. Pobre, feia e sem qualidade a contrastar com as velhas obras. Um pobreza triste. Mesmo assim, na vitrina de uma loja vi uma bela Santa Apolónia. Muito diferente das demais, diferente na matéria, madeira almofadada, e no trabalho artístico. Aquilo sim, era verdadeira arte sacra. Perguntei o preço. Obviamente proporcional à qualidade. É a última peça de madeira e a última que o artista fez. Pois, o preço… O senhor olhou-me e viu o meu interesse na peça. Fez um desconto imprevisível e eu nem hesitei. Acabei por adquirir uma Santa Apolónia capaz de fazer inveja à que está na Sé de Braga. Pensei, é a minha loucura de verão.

No regresso, o mendigo continuava a tocar a flauta penosamente. Compensei-o. Olhou e disse palavras simpáticas e profundas, mas mais profundas do que as palavras foi o seu olhar, claro, brilhante, profundo a irradiar um pouco de felicidade. Terminou a sua atuação naquele momento. A Santa Apolónia, embrulhada à maneira, não viu, mas ouviu e sentiu.

Como hoje é o dia de anos do meu filho mais novo, que é médico-dentista, ficou desde já destinada a santa, mas só a leva depois de eu desaparecer…

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